[REVIEW] Random Access Memories

Once you free your mind about a concept of harmony and music being a correct, you can do whatever you want. So nobody told me what to do, and there was no preconception of what to do” (Giorgio Moroder em “Giorgio by Moroder”)

 

Random Acces Memories provavelmente é o conteúdo musical em que mais eu fiquei hypado na minha vida. Na verdade, ele é o primeiro álbum de música que esperei. Primeiro, por causa do The Collaborators, onde os principais caras que participaram do disco contam suas origens, como conheceram o Daft Punk e como foi o trabalho em RAM. Giorgio Moroder, Nile Rodgers, Pharrell Williams, Chilly Gonzales e outras feras juntos com o Daft Punk. Não tem jeito de sair coisa ruim. E não saiu. Em segundo lugar, todo um povo fazendo remix dos trechos de Get Lucky que tocavam nas entrevistas dos colaboradores. Engraçado perceber que, por mais que nós nos esforcemos, nunca alcançaremos o nível de verdadeiros artistas.

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[REVIEW] As Crônicas de Gelo e Fogo: A Dança dos Dragões

– Serão os seus Sete Reinos assim tão diferentes? Não há paz em Westeros, não há justiça, não há fé… e muito em breve não haverá comida. Quando os homens passam fome e estão doentes de medo, procuram um salvador.”

Como A Dança dos Dragões se passa na mesma época de O Festim dos Corvos, toda aquela atmosfera de desespero, medo, sujeira e abandono continua presente aqui. Só para constar: Dança é melhor do que Festim. Primeiro porque Dança traz meus personagens preferidos, o que já ajuda logo de cara. Segundo porque seus diálogos são mais bem construídos (justamente por causa desses meus personagens preferidos). Para lembrar você que já leu o livro há algum tempo ou que por algum motivo idiota está lendo a análise do quinto livro de uma saga tão extensa, Dança traz todo mundo que não aparece em Festim. Aqui são relatadas as histórias do Norte, do mundo Para-Lá-Da-Muralha, de Volantis e da Baía dos Escravos. Nada desse povo do Sul com seu calor e suas frescuras. Esse é um livro de machos. Eu diria que esse é mais que um livro de machos. É um livro nojento, repleto de passagens que trazem o pior do ser humano. É um livro que já começa terrível, contando como ficou a situação do povo livre depois da batalha na Muralha. Varamyr Troca-Peles foi o escolhido para abrir o livro morrendo (como todos os personagens que abrem todos os livros).

Tinha os lábios vermelhos, os lábios fendidos, a garganta seca e ressecada, mas os sabores do sangue e da gordura enchiam-lhe a boca, mesmo apesar da barriga distendida gritando por alimento. A carne de uma criança, pensou, lembrando-se de Bossa. Carne humana. Teria caído suficientemente baixo para sentir fome de carne humana? Quase conseguia ouvir Haggon rosnando-lhe.

– Os homens podem comer a carne de animais e os animais a carne de homens, mas o homem que come a carne do homem é uma abominação.

Abominação. Sempre foi essa a palavra preferida de Haggon. Abominação, abominação, abominação.”

O povo livre se divide em três: os que morrem de fome, os que procuram se reorganizar para lá da Muralha e aqueles que se sujeitam a Stannis. Destes, alguns se tornam homens de Lorde Snow, que lhes oferece abrigo, trabalho e comida na Muralha, mesmo sob a vista torta de muita gente. De cara vemos como Jon evoluiu nesses livros. Apesar de não ser um comandante carrancudo, ele traz muito da justiça que o pai lhe deu. Uma de suas passagens mais interessantes e que marca essa transição é a morte de Janos Slynt. Ele começa a pensar em punições cada vez mais severas ao malandrão até que decide-se pelo enforcamento.

E a Muralha sofre de mesmo mal que o resto de Westeros sofre: a falta de bons líderes. Já falei sobre isso no review de O Festim dos Corvos, mas vale a repetição. Todo mundo que era foda, respeitado e o caralho à 4, já morreu. Na Muralha o próprio Jon me ajudou a fazer a listinha. O Velho Urso, Quorin Meia-Mão, Donal Noye, Jarmen Buckwell, o tio de Jon… e a lista não para aí, pois no final do livro mais bons homens morrem. Só sobram os fracos.

Na velocidade em que está, Stannis demorará 100 anos para chegar em Porto Real
Na velocidade em que está, Stannis demorará 100 anos para chegar em Porto Real

Porém, mesmo com alguns momentos interessantes, como sua luta com o Camisa de Chocalho (que revela-se depois como Mance Rayder) e umas duas conversas com Stannis, as partes de Snow são exageradamente lentas. Em especial no começo. São uns três capítulos contando eventos que já tínhamos visto em O Festim dos Corvos sob os olhos de Sam. Não era necessário tudo aquilo. A parte dos diálogos repetidos é legal, mas a enrolação para a partida de Sam é muito grande. Mas não é nada que quem chegou até aqui não consiga superar. O final de Jon é aquele que nos deixa em dúvida: seria ele, na verdade, o Azor Ahai renascido e não Stannis? Melisandre pareceu bastante confusa quanto a isso no último capítulo.

Continuando no Norte temos o personagem mais bem construído desse livro: Fedor. Incrível acompanhar como Theon Greyjoy, metido e fanfarrão, se tornou um cachorrinho de Ramsay Snow (Snow não! Bolton!). Depois de ficar meses numa masmorra sem comer direito e sendo esfolado, torturado e amputado inúmeras vezes, Theon se tornou Fedor. Com isso ele obteve uma mente perturbada, amedrontada e receosa de qualquer opinião que Ramsay emita sobre ele. Saca só a forma como ele é apresentado:

A ratazana guinchou quando a mordeu, esperneando violentamente em suas mãos, num frenesi para fugir. A barriga era a parte mais mole. Rasgou a carne doce, com o sangue quente escorrendo pelos lábios. Era tão bom que lhe trouxe lágrimas aos olhos. A sua barriga trovejou e ele engoliu. À terceira dentada a ratazana parou de lutar e ele estava sentindo-se quase satisfeito.”

Vejam a cara de desaprovação de Lorde Bolton diante das atrocidades do filho
Vejam a cara de desaprovação de Lorde Bolton diante das atrocidades do filho

Ramsay é a pessoa mais grotesca de Westeros. Nem as maldades feitas pelos Bravos Companheiros chegam aos pés do que esse bastardo faz. Ele representa toda a maldade do Norte, aquela que é demonstrada. Diferente do Sul, onde a maldade é velada. É claro que Ramsay terá uma morte horrível em breve. Aliás, ele nem merece uma morte em batalha. Espero ansioso por esse momento. Assim como espero pela revelação de que Arya não é Arya. Os Bolton se revoltarão contra os Lannister (falei bosta aqui. O amigo Nanotícias lembrou que Roose e Fedor tiveram uma conversa e falaram sobre isso) . Por falar em Norte, percebe-se que essa região é mais “espiritualizada” que o Sul. A presença dos deuses antigos ali é muito mais forte que os Sete abaixo de Fosso Cailin. Além disso, o povo do Norte é bem diferente no que diz respeito a resolver as situações. Essa passagem do senhor de Porto Branco (mesmo sua origem não ser bem o Norte) representa bem.

Eu bebo com Jared, gracejo com Symond, prometo a Rhaegar a mão de minha querida neta… mas nunca julgue que isso quer dizer que me esqueci. O Norte lembra-se, Lorde Davos. O Norte lembra-se e a farsa está quase no fim.”

Ainda a respeito do Norte, espero que Bran e Arya não se esqueçam o que aconteceu com eles e com a família deles. E como “o inverno está chegando”, a hora de se lembrar de tudo também está para chegar.

A respeito de Davos, eu simplesmente não havia acreditado em O Festim que ele havia morrido. Além do que sua morte tinha sido contada de forma tão rápida e sem importância que não achei justa. Um cara como ele merecia um final melhor. Depois de sofrer muito, perder quatro filhos e a bolsinha em que carregava seus dedos, ele merecia algo melhor (nem que seja uma morte melhor). Morrer em Porto Branco seria uma sacanagem. E o cara é corajoso, hein? Chamar um Frey de mentiroso na frente de uma corte inteira foi a prova de que Davos é foda. Nos capítulos dele também achei que ele se encontraria com Rickon e, de alguma forma, ficasse quieto e não contasse esse fato a Stannis. Mas ficou nisso mesmo.

Um capítulo discreto, chamado “A Noiva Desobediente”, foi um dos melhores. Nele é contado o que aconteceu no refúgio de Asha Greyjoy e, consequentemente, sua morte. E que morte. Ela leva um monte de gente na espada até morrer. Só que não morre no mar, o que me faz pensar que ela ainda voltará no livro da mesma forma que os mortos estão voltando. Mas o melhor do capítulo com certeza é sua cena de sexo com Qarl. Sério, dá vontade de comer Asha, de tão bem escrita que foi essa cena. Disparada a melhor transa dos cinco livros.

Estava ensopada quando ele a penetrou.

– Raios lhe partam – disse – Raios lhe partam raios lhe partam raios lhe partam. – Ele chupou-lhe os mamilos até que ela gritou, meio de dor, meio de prazer. A sua rata tranformou-se no mundo. Esqueceu-se de Fosso Cailin, de Ramsay Bolton e de seu bocadinho de pele, esqueceu a assembleia de homens livres, esqueceu seu fracasso, esqueceu seu exílio, os inimigos e o marido. Só as mãos dele importavam, só a sua boca, só os seus braços à sua volta, a sua pica dentro dela. Ele fodeu-a até a pôr a gritar, e depois fodeu-a de novo até a pôr a chorar, antes de finalmente despejar sua semente no ventre dela.”

E bora terminar o Norte falando a respeito de Bran. Finalmente ele consegue coordenar sua troca de peles e agora faz isso de boa. E ele se encontra com os “filhos da floresta” que, após uma pausa de umas 300 páginas no livro, revelam a ele que ele é um vidente verde (oh, ninguém sabia). Nunca gostei dos capítulos de Bran. Pelo menos nesse livro o autor deixou pouco espaço para ele. Resta saber no sexto livro como ele irá utilizar todo o poder que ganhou. Minha opinião: ele não fará nada porque é um bosta.

Agora chega de frio. Vamos para o calor da Baía dos Escravos. Daenerys. Caras, eu fico tenso toda vez que um capítulo dela se inicia. Parece que a qualquer momento os dragões morrerão (um já foi embora) ou que ela será assassinada. Esses dragões dela lembram o Charizard do Ash. Charizard era desobediente e só foi ajudar Ash quando ele tava fodido no final da Liga Laranja. É isso mesmo? Nem lembro mais.

Percebe-se que ela não deseja mais tanto assim voltar para Westeros. Ela quer ficar em Meereen e ajudar todos aqueles escravos libertos. E, diabos, porque ela é tão burra? A filha da mãe está sendo cercada por exércitos e mais exércitos e fica lá parada esperando o ataque. Gosto bastante dos capítulos dela, mas eles me deixam angustiado. Eu quero vê-la atacando Porto Real com dragões e passando o archote em tudo, mas como digo sempre, ela está bufando no farináceo. E aquela líder que ela era está se perdendo no desejo louco que ela tem de ser fodida (vamos usar o palavreado do livro) por Daario.

Uma coisa interessante de se observar também é a corrida pra ver quem chegará primeiro em Daenerys. Quentyn Martell, Aegon Targaryen, Tyrion Lannister ou Victarion Greyjoy? Por depender de si próprio, chuto em Victarion, principalmente por nada da sua frota ser comentada em A Dança. Falando a real aqui: Quentyn é um merdinha. Como um cara como aquele deseja ser rei? Ele vai chegar pra Daenerys com mais duas pessoas e a Mãe de Dragões falará: “Você só trouxe isso? Eu preciso de uma tropa para me defender”. Tenho certeza que Quentyn irá se enganar legal no próximo livro. Vai vendo. Já o outro Targaryen tem mais força e, após receber uma lição de Tyrion, aprende o que deve fazer. Esse moleque tem futuro, apesar de eu achar que ele é o típico personagem que irá morrer.

Por fim Tyrion. Como eu estava com saudades desse personagem. Mas vou dizer logo de cara: seu final foi péssimo. Como assim o final de um personagem tão foda termina nele contemplando os fogos da Valíria? Assim como o final de Bran, fiquei procurando se tinha mais coisa depois daquilo. Os créditos passaram, acenderam-se as luzes, começaram a limpar a sala e eu fiquei perguntando “Tá. E daí?”. Todos os seus capítulos tinham sido muito bons, destacando-se o discurso que ele faz para desmascarar Aegon Targaryen e sua trupe e o jogo de cyvasse com Aegon para mostrar o quanto o moleque ainda é… moleque.

Illyrio dá tantas voltas nas conspirações que nem ele mesmo sabe o que quer fazer (mentira)
Illyrio dá tantas voltas nas conspirações que nem ele mesmo sabe o que quer fazer (mentira)

Também é muito interessante a volta de Illyrio Mopatis que, como se percebe, conspirou junto com Varys por anos para colocar de volta os Targaryen no trono. A origem de Varys mostra o quanto uma pessoa pode ir longe apenas tramando e provocando reações nas pessoas. Tyrion continua falastrão mas, como sempre está dependendo de alguém para alcançar seu objetivo, muitas vezes ele se segura para não falar besteiras.

Griff fitou-o, franzindo o semblante.

– Te avisei Lannister. Ou controla sua língua ou a perde. Há aqui reinos em risco. As nossas vidas, os nossos nomes, a nossa honra. Isto não é nenhum jogo que estamos jogando para seu divertimento.

Claro que é, pensou Tyrion. O jogo dos tronos.”

Tyrion entra em uma amargura profunda depois de matar o pai. Vira-e-mexe ele sai perguntando por aí por onde andam as rameiras, frase dita pelo pai pouco antes da morte. E já que tocamos no assunto, o amigo Nanotícias cantou a pedra que Tyrion poderia ser filho de Aerys (Tywin corno), o que faria com que ele seja o maior pretendente ao trono de ferro. Se isso for verdade, a história sofrerá um plot twist tão foda que explodiria a cabeça de muita gente, seja aqui na Terra ou em Westeros. Enquanto essa provável mudança não ocorre, o Anão continuará muito amargurado e pensativo. Nessa passagem em que ele vai foder uma prostituta (e depois é pego por Jorah Mormont), isso fica bem claro.

Rolou para fora dela sentindo-se mais envergonhado do que saciado. Isto foi um erro. Que criatura desgraçada essa que me tornei.

– Conhece uma mulher que se chama Tysha? – perguntou, enquanto observava a sua semente escorrer de dentro dela para a cama. A rameira não respondeu. – Sabe para onde vão as rameiras? – Também não respondeu a essa pergunta. Tinha nas costas um rendilhado de estrias de tecido cicatricial. Essa mulher para todos os efeitos está morta. Acabei de foder um cadáver. Até os seus olhos pareciam mortos. Nem sequer tem força para me abominar.

"Vai, me chama de assassino de parentes que eu gosto"
“Vai, me chama de assassino de parentes que eu gosto”

Acho que agora entendi o significado de A Dança dos Dragões. Sim, sou meio burro, mas foi escrevendo isso que percebi que são três Targaryen vivos: Daenerys, Aegon e Tyrion. E um dragão para cada um deles. Mas pera… porque diabos Tyrion não tem os cabelos prateados? “Ah, puxou pra mãe”. Foda-se, até os outros bastardos do Targaryen tem os cabelos prateados. Argh! Chega de especulação. O Nano disse que Os Ventos do Inverno será lançado ainda neste ano. Em outro lugar li que o lançamento será em 2015. E que Um Sonho de Primavera sairá só em 2019. Serão mais 6 anos esperando? Melhor não pensar.

O fato é que o próximo livro ainda demorará um bocado. Minha análise da série até aqui é que ela é absolutamente perfeita. Não posso ir mais além para não adentrar na perigosa síndrome de Lost. O Festim dos Corvos e A Dança dos Dragões foram para mim como um período entre-guerras. Não dá para combater a todo momento. E em Os Ventos do Inverno finalmente teremos aquilo que foi prometido desde a capa do primeiro livro: o inverno. Todo mundo vai se foder legal pois as guerras impediram o acúmulo de alimentos. Será gente comendo gente, literalmente falando. Enquanto o livro não sai, vou ler e reler esse trecho de capítulo de Arianne Martell.

Só peço que uma coisa não falte: os grande parceiros de conversa. Ainda sinto muita falta da dobradinha Tyrion+Bronn. Enquanto eles não se reencontram, fico contente com diálogos como os de Jorah e Tyrion. Pra mim, todas as centenas de páginas são válidas paor causa de diálogos como esse:

– Pode ser que só queira ver-te pagar pelos seus crimes. O assassino de parentes é maldito pelos olhos dos deuses e dos homens.

– Os deuses são cegos. E os homens só veem o que querem ver.

– Eu vejo-te com bastante clareza, Duende. – Algo negro esgueirou-se para o tom do cavaleiro. – Fiz coisas de que não me orgulho, coisas que trouxeram vergonha a minha casa e ao nome do meu pai… mas matar o próprio pai? Como é possível que algum homem faça tal coisa?

– Dê-me uma besta e baixe as calças que eu te mostro. – De bom grado.

– Julga que isto é uma brincadeira?

– Julgo que a vida é uma brincadeira. A sua, a minha e de toda a gente.”

***

Bom, já que o próximo livro da série vai demorar, minha única saída é partir para outro. Vou aproveitar e eliminar uma das vergonhas que é nunca ter lido nada de Bernard Cornwell. Pesquisei e vi que sua melhor série são As Crônicas de Artur. Então o próximo review será de O Rei de Inverno (caramba, é inverno pra tudo quanto é lado).

[REVIEW] As Crônicas de Gelo e Fogo: O Festim dos Corvos

– Enforcamento parece ser o esporte favorito por estas bandas – disse Sor Hyle Hunt – Se eu tivesse umas terras por aqui, plantaria cânhamo, venderia cordas e faria uma fortuna”

Faz mais ou menos um ano que comecei a fantasia épica das pobres almas que vagam por Westeros (e pelas Cidas Livres e Para-Lá-Da-Muralha e Do Outro Lado do Mar). Em uns cinco meses li os três primeiros livros, sem pausas. Não conseguia parar de ler. O motivo principal era que acompanhar os diálogos de personagens fodas como Tyrion Lannister, o Duende, o Maneta, o Herói das Águas Negras, havia se tornado de certa forma tão viciante que era impossível abandonar aquilo. Eu não queria abandonar os meus melhores amigos que conversavam, choravam, brigavam e morriam (ô se morriam). Mas aí veio uma parada chata pra caramba, intitulada academicamente de TCC. Eu ficava boa parte do dia lendo fichamentos e tentando encaixar uma coisa na outra com uma linguagem bacana e, quando tinha tempo pra ler, percebia que meus olhos estavam cansados. Muito cansados. Não conseguia ler. Mas aí acabou faculdade, acabou TCC, acabaram-se os compromissos noturnos e, um mês atrás (ou quase isso), pensei: “Tá na hora de voltar a ler as Crônicas”. Consegui ler O Festim dos Corvos.

No começo do parágrafo anterior eu disse que não conseguia me separar dos diálogos da série. Só para me sacanear, O Festim dos Corvos não tem tantos diálogos de tirar o fôlego. Dois dos melhores personagens, Tyrion e Jon Snow, só aparecerão em A Dança dos Dragões. Eu não gosto de bisbilhotar sobre um livro na Wikipedia antes de ler, então não sabia que eles ficariam de fora, bem como Daenerys, Bran e Stannis. Comecei o livro esperando como iria se desenrolar o apoio de Jon Snow a Stannis depois da batalha (ou melhor, massacre) em Castelo Negro. Comecei o livro esperando pela fuga de Tyrion após matar seu pai, o poderoso Tywin Lannister. Mas não, eles não estavam lá. Isso me decepcionou fortemente. As histórias de Brienne e Sam são contadas muito por pensamentos, mais do que por diálogos. Isso porque Brienne sempre tem medo de ser estuprada em qualquer lugar em que ela dorme e por ela ser uma pessoa de poucas palavras, muito por causa de sua origem e de seu corpo. Já Sam é muito covarde para tomar frente em qualquer situação. O medo da reação das pessoas, da sua família, dos Irmãos Juramentados e até de pessoas que ele não conhece, lá em Bravos, faz com que suas ações sejam, principalmente, dadas em pensamentos.

Cersei tem relações lésbicas neste livro. Quem não gosta de ver duas mulheres se pegando? (olha o preconceito)
Cersei tem relações lésbicas neste livro. Quem não gosta de ver duas mulheres se pegando? (ó o preconceito)

Os únicos personagens que realmente falam pelos cotovelos são Cersei e Jaime. Cersei é a personagem principal do livro. Todas as ações se dão em Porto Real. Ou então por causa de ações dela. Os momentos em que eu mais me divirtia eram seus diálogos com Qyburn, que substituiu Varys na posição de conspirador e sabe-tudo. Os diálogos de Cersei e Qyburn quase superam os de Tyrion e Bronn nos outros livros. Quase. No entanto, eles não são numerosos. Já Jaime tem seus grandes “diálogos” com o mudo Ilyn Payne. Mas nada supera o incrível diálogo de Jaime com Daven Lannister. Saca só essa passagem:

Sor Daven soltou um resmungo.

– Sabe o que é o melhor nos heróis, Jaime? Que, como todos morrem jovens, os demais pegam mais mulheres. – estendeu o copo ao escudeiro – Encha outra vez e eu também direi que é um herói. Tenho sede”

Muito bom. Para você ver como esse livro não é constituído de frases e diálogos marcantes, o mote principal da história é a desconfiança de Jaime a respeito de Cersei (que é mútua, por sinal). E esse sentimento de traição incestual fica marcada pela grande frase que Tyrion disse a Jaime quando este soltou aquele da prisão, lá no final do terceiro livro:

…ela anda fodendo com Lancel e Osmund Kettleblack e provavelmente até com o Rapaz Lua, pelo que sei…”

Até quando não está presente Tyrion é importante.

As histórias de Arya e Sansa Stark, apesar de andarem muito devagar, são, pra mim, mais fáceis de acompanhar que as de Brienne e Sam. As de Arya lembram aqueles treinamentos que os personagens de mangá passam para ficarem mais fortes. E, no final, OH MEU DEUS, NO FINAL ELA FICA CEGA. Véi, como assim? Tô tentando entender aquilo até agora. Já os capítulos de Sansa são bem legais por causa de Petyr Baelish. Uma vez no Facebook um cara disse pra mim que empacava nos capítulos da Sansa. Pra mim, o que leva seus capítulos para frente são as conspirações de Petyr que, como eu já previ no review do último livro, um dia ainda será Rei Petyr. E provavelmente morrerá por causa disso. Podem favoritar para a COBRADA.

Nas Ilhas de Ferro parece que estamos em um mundo distante, assim como nas histórias de Daenerys. Pilhagens, batalhas marítimas, navios, tudo naquele ambiente de pirata que, na minha opinião, foge demais dos capítulos com cavaleiros andantes, donzelas e essas coisas todas. Foge do ambiente, mas é muito divertido. A forma como o Olho de Corvo toma o poder e esculacha o irmão e a sobrinha é muito bom. Você se sente como se fosse um daqueles bárbaros, sujos, barbudos, carrancudos e gritando obscenidades. Foi um dos pontos altos. Já que toquei no assunto, alguém conhece um bom livro com piratas? Tô querendo ler um assim.

 

Pyke é um lugar muito procurado pelos praticantes do bungee jumping
Pyke é um lugar muito procurado pelos praticantes do bungee jumping

 

A história de Cersei, a melhor, corre daquele jeito: ela resolve um monte de problemas e, nos momentos de folga, procura um jeito de acabar com Margaery. Cersei representa a acumulação de riquezas desenfreada, mas acaba se fodendo (coisa que ela gosta muito, mas apenas no sentido bíblico) quando dá poderes demais para septões, ou seja, para a igreja, e esta se volta contra ela.

Tenho de dizer que O Festim dos Corvos é sustentado por dois grandes pilares: a religiosidade/fundamentalismo e o desespero/barbárie.

Ainda não li A Dança dos Dragões (acabando esse review começarei o quinto livro sem perder tempo), mas pude perceber que as histórias do quarto e do quinto livro é o período entre-guerras. Depois da Guerra dos Cinco Reis, Westeros virou uma bagunça. As casas Tully e Stark foram obliteradas. Dessa forma, o Norte e o Tridente viraram uma bagunça. Todo mundo está desesperado, fodido e, com isso, “aceitam Jesus” mais fácil, como, por exemplo, Lancel Lannister. Os foras-da-lei/rebeldes/loucos de Dondarrion, Catelyn Stark, Cão-de-Caça entre outros se tornaram seguidores do deus vermelho e ganharam aqueles poderes de ressuscitar as pessoas, ver além e aquelas paradas todas. Não dá pra saber o que eles vão fazer. Não posso nem dizer se Brienne foi morta mesmo pela sua senhora/zumbi-chefe. Só saberei se ela morreu mesmo no sexto livro. Ou não. Aliás, sua “morte” faz parte daquelas mortes em câmera lenta, em que a pessoa vê toda a sua vida passar em milésimos de segundo. Acho isso muito legal.

Ao mesmo tempo, os septões ganham muita força em Porto Real após ganharem o direito de se armarem. E eles começam a fazer práticas nada boas, como a de chicotear pessoas (vê-se isso em Osney Kettleblack). Já Arya aprende várias coisas a respeito do deus das mil faces. Em suma, O Festim dos Corvos é o livro mais religioso até o momento. E provavelmente veremos mais disso nos próximos livros. A história está se tornando cada vez mais tarantinesca, com rumos imprevisíveis e com a magia está se tornando cada vez mais presente.

Tem uma passagem sobre religião que há de se destacar. É a que faz uma crítica sobre a supervalorização que há do sexo. Quando Sam não quer mais olhar para Goiva depois ter transado com ela, Kojja dá uma grande lição:

“ – Não há vergonha em amar. Se os seus septões dizem que há, então seus deuses devem ser sete demônios. (…). Que deus cruel e louco daria aos homens olhos e depois diria para que os deixassem sempre fechados, e nunca olhar para toda a beleza do mundo? Os deuses deram-lhe isso por uma razão também, para foder. Para a concessão do prazer e criação de crianças. Não há vergonha nisso”. Como se vê, essa é uma grande aula de educação sexual.

Mas a característica do livro que eu mais gosto é o desespero. Em especial nas aventuras do Tridente, percebe-se que o desespero chegou ali e ficou. Todo mundo está desconfiado. Uma das grandes causas disso é que os grandes combatentes e líderes de antigamente se foram. Jon Arryn, Eddard Stark, Robert Baratheon, Hoster Tully, Balon Greyjoy, Tywin Lannister e outros, todos a seu tempo, se foram. Os que sobraram foram apenas os deturpados de espírito, os fracos ou aqueles mais espertos que preferem as retiradas estratégicas do que o combate frontal. E, assim, as brigas passaram a ser internas. E, como Victarion Greyjoy disse no começo do livro, “Nenhum homem é tão amaldiçoado como aquele que mata um dos seus”. E essas brigas acontecem em Porto Real, nas Ilhas de Ferro e em Dorne, onde uma família inteira é presa.

 

Se Game of Thrones fosse brasileiro, Lima Duarte faria o papel de Tywin Lannister.
Se Game of Thrones fosse brasileiro, Lima Duarte faria o papel de Tywin Lannister.

 

A maldade e o medo estão tão impregnados que até Jaime se surpreende quando lhe contam como foi o fim do líder dos saltimbancos, Vargo Hoat. São apenas umas 15 linhas de diálogo, mas a nojeira alcança níveis nunca antes pensados. A morte se tornou tão comum que um dos pensamentos de Brienne se encaixa bem nessa situação: “Numa árvore de forca, todos os homens são irmãos”. Thoros de Myr manda outra frase de efeito: “Quando os homens vivem como ratos no escuro, debaixo da terra, a piedade se acaba tão rápido quanto o leite e o mel”. Finalizando, Jaime Lannister vê a neve caindo (finalmente! Esperei 4 livros pra isso… se bem que inverno mesmo só no 6° livro) e manda uma frase de assustar: “O inverno marcha para o sul, e metade dos nossos celeiros estão vazios”. O que isso significa? Mais mortes, guerras e momentos como o descrito pelo Septão Meribald:

” – O perigo é ser parte do povo quando os grandes senhores jogam o jogo dos tronos – disse o Septão Meribald – Não é assim, cachorro? – o cão latiu concordando.”

Review: Stealth Bastard

Quem não gosta de lasers? Quem não gosta de enganar robôs de vigilância superinteligentes? Quem não gosta de ninjas? Quem não gosta de sangue?

Há um tempão atrás, quando eu ainda estava com meu outro microcomputador, encontrei pelas interwebs um joguinho indie e gratuito chamado Stealth Bastard. A temática parecia bem legal: era um daqueles games de fases curtas, mas com uma pegada de dificuldade um pouco maior e com stealth. E eu adoro stealth. Só de pensar em entrar em lugares sem que ninguém me veja… putz, isso é muito foda. Eu sou daqueles que chego em casa sem fazer barulho, dou a volta na residência, entro no quarto, troco de roupa e, quando minha mãe vai ver, eu já estou sentado no sofá. Acho isso o máximo. E babaca também, mas fazer o quê, né?

Stealth Bastard também traz todo aquele senso de urgência comum nos jogos de hoje. O objetivo não é fazer melhor. O objetivo é fazer o mais rápido possível. Eu, que gosto de estudar os padrões de movimento dos robôs e das plataformas, muitas vezes não dou muito bem. Seria mais interessante se o jogo tivesse, além do número de mortes (que indica sua eficiência), a quantidade de vezes em que um alarme foi disparado ou quantas vezes você foi visto pelos robôs. Isso daria mais “stealth” e menos “bastard” (seja lá qual for o sentido que se dá para isso) ao jogo. E o jogo ainda traz aqueles óculos verdes estilosos de espião que só o Sam Fisher tem. 

 

"You gonna die, Charlie"
“You gonna die, Charlie”

 

A campanha é fácil. O primeiro nível é praticamente apenas de tutorial. Aliás, tutorial é algo um tanto quanto besta neste jogo. Além das setas direcionais, só se usa a tecla Z para pular e ficar pendurado nas plataformas. E o botão CIMA também é usado para interagir com os computadores. Os outros quatro níveis vão ficando cada vez mais interessantes. Destaque para uma das fases em que se exige manipular as cores para abrir passagens específicas. Muito bem bolado. As últimas fases nem são tão difíceis assim. Mesmo curtíssimas, as fases possuem savepoints, o que facilita bastante para os impacientes ou que não gostam de tanto desafio.

Mas Stealth Bastard brilha nas fases criadas pelos usuários. Enquanto que a campanha pode ser finalizada em menos de uma hora, os mais de 1200 levels criados pelos fãs irão te entreter por muito tempo. Neles é possível encontrar desde fases curtas e fáceis até fases com níveis de dificuldade absurdos, com puzzles que te confundirão. É quase um Kaizo Mario da espionagem. Não, é menos. Mas é bem difícil. Já o mais legal nisso aí é realmente tentar fazer o menor tempo e alcançar o topo do ranking. Ás vezes eu não erro um passo e, ainda assim, não fico com o menor tempo. Maldito lag.

 

É muito difícil ficar em primeiro no ranking mundial
É muito difícil ficar em primeiro no ranking mundial

 

Ainda estou na espera de um jogo que misture o Stealth Bastard com o Ultimate Assassin, outro jogo indie (só que em Flash) que eu gosto bastante. O que eu mais procuro em jogos stealth é o sofrimento que, após minutos e minutos para passar por uma simples parte é recompesado com uma descarga de energia interna que só traz felicidade.

Agora chega de jogar Stealth Bastard que eu preciso voltar minhas atenções para a legislação do mercado de petróleo, gás natural e biocombustíveis. Um abraço.

Review: Protocolo Bluehand: Zumbis

Ô, final do mundo chegou! Em casa é que eu vou ficar! Tem zumbis na rua que vão me devorar! 

Putz, eu tinha que começar o review de PBHz falando e cantando merda. Aliás, nos últimos dias eu venho fazendo várias paródias mentais. Tá foda. É um péssimo costume que eu não consigo perder. De fato, galhofagem por galhofagem, a série Protocolo Bluehand é bem maior do que qualquer coisa que já escrevi neste humilde blog.

Ao falar de zumbis, Alexandre Ottoni, Deive Pazos e o enigmático Abu Fobiya, o pai do medo, conseguem ser ainda mais brincalhões e “filme B style” do que em Protocolo Bluehand: Alienígenas. Obviamente que o estilão trash só é presente na linguagem (que mistura coisas sérias e até mesmo úteis com muita besteira), pois o cuidado técnico de ilustração, edição e diagramação é imprecável. Neste sentido, PBHz consegue ser ainda melhor que PBHa.

Tem que carregar junto com o Protocolo Bluehand: Alienígenas. Ou seja, mais peso na mochila
Tem que carregar junto com o Protocolo Bluehand: Alienígenas. Ou seja, mais peso na mochila

Os relatos fantasiosos e cheios de easter eggs de John Doe, do egípcio Tuk Ahn e do renomado psicólogo Frederick K. tornam PBHz um festival de referências para quem é fã do Jovem Nerd. Tudo de forma a avisar sobre os tempos vindouros onde, em meio a chuva de pica, deveremos pegar a menor e sentar. Confesso que, enquanto esperava a chegada do livro, eu só pensava nestes momentos de risada. Esses momentos que, se você contar pra alguém que não ouve o Nerdcast, eles ficarão boiando.

Ainda assim, muitas informações são passadas no livro. Em nenhum momento eu consegui comparar os protocolos com “O Guia de Sobrevivência aos Zumbis” de Max Brooks. Houve um cuidado especial do livro em não se concentrar em como matar um zumbi ou qual a arma necessária. Ficou muito bem explicado que matar um zumbi não é uma coisa fácil. Não podemos ser o exército de um homem só. Tomou-se muito cuidado em explicar, principalmente, o abalo que a sociedade sofrerá quando o apocalipse zumbi chegar.

Destaque para os infográficos, algo que senti falta em PBHa. Muito bem explicados e ilustrados, eles explicam bem como sobreviver, onde se refugiar (estou procurando uma fazenda agora mesmo) e, principalmente, onde não ir. Outras informações, como, por exemplo, a montagem de uma pequena rede elétrica, como tomar banho e lavar roupas sem água e até mesmo como se tornar um ermitão, são úteis para qualquer situação extrema que podemos passar. Não é só contra o T. zombi que devemos nos preparar.

Goste ou não, The Walking Dead revolucionou os quadrinhos, a TV e os games
Goste ou não, The Walking Dead revolucionou os quadrinhos, a TV e os games

Os últimos capítulos do livro mostram até onde a cabeça de um nerd pode chegar ao dissecar um tema. “Zumbis Juridicus” (um capítulo provavelmente pensado por Azaghâl) e seu estilo politicamente incorreto nos mostra como a sociedade é idiota. As expressões que não devemos usar são simplesmente sensacionais. “Vida Prática” me ensinou muitas coisas e arrancou risadas sobre zumbifilia. Por fim, o epílogo só pode ter sido a quatro mãos. Ninguém consegue escrever aquilo sozinho… e sóbrio.

PBHz atinge o objetivo que PBHa chegou bem perto: tornar-se, essencialmente, um livro de humor. A leitura é extremamente rápida (levei umas 12 horas parando para as necessidades fisiológicas onde me higienizei após “passar o fax”) e prazerosa. Em nenhum momento passa pela cabeça: “Vou parar aqui. Amanhã eu continuo”. Tudo o que senti falta em PBHa está aqui: mais fantasia e menos coisas sérias (se é que isso é possível, sei lá). É um livro absoluto maravilhoso.

Fica meu desejo para que, no final do ano que vem, saia um Protocolo Bluehand: Máquinas (ou Robôs, whatever), onde pudéssemos aprender sobre os perigos que as máquinas vindas do futuro podem trazer, como combatê-las, como identificar se a sua máquina está se virando contra você e outras coisas que somente a cabeça de três nerds podem imaginar. Se a capa de PBHa trazia o sangue verde alienígena e PBHz a mordida de um zumbi, PBHm poderia ter uma faixa queimada por raio laser. Ia ser foda.

Segue meu código de reconhecimento na Rede Bluehand:

PBHaz+5518?1632838997

Review: A Tormenta de Espadas

Quando comecei a ler As Crônicas de Gelo e Fogo eu estava esperando um épico. Mas, chegando ao terceiro livro, percebo que a série está longe de ser um épico. E isso não é uma característica ruim. Muito pelo contrário. A Tormenta de Espadas é o livro mais tarantinesco que já li. Explico: você nunca sabe quais serão os próximos passos que cada personagem tomará. Exceto por uma ou outra atitude, como, por exemplo, as de Jon Snow e Daenerys Targaryen (as mais “épicas” das crônicas), você nada por um mar desconhecido de pretensões, conspirações, reviravoltas e muitos, mas muitos assassinatos. Bom, acho desnecessário colocar isso, mas vai lá: tem muitos spoilers aqui. Ponha sua conta em risco.

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Review: A Fúria dos Reis

Quando chegam os 13 fantasmas, digo, as 13 semanas para fazer o TCC, você passa em um teste de fogo de prazos. Nesse período, as atenções ficam voltadas para livros didáticos, teses de mestrado e doutorado, artigos, livros boring e todo uma porcaria acadêmica que, admito, é importante para o avanço científico e econômico do país, mas, na verdade, dá no saco. Mas isso só acontece porque não nos dedicamos o suficiente durante 3 anos e meio e deixamos para o meio restante toda uma carga de educação que temos que absorver. No entanto, como sou lépido, faceiro e um tanto quanto vagabundo, ainda arranjo tempo para ler chaproscas como A Fúria dos Reis.


Minha análise desse livro parte da capa. Não sei vocês entenderam isso também, mas ela traz Tyrion Lannister andando pelas ruas de Porto Real. Se for pensar bem, acho que essa visão foi a que mais me passou pela cabeça durante a leitura do livro. Tyrion continua sendo o personagem principal, uma vez que suas conspirações para se tornar o “comandante do submundo de Porto Real” são as melhores partes da história. Incrível como um personagem pode ter tanto carisma. Aliás, suas conversas com Varys, Cersei e Bronn são de longe, o ponto alto da qualidade de escritor de George Martin. As conversas são cheias de pormenores e detalhes que só são percebidos em uma leitura lenta e proveitosa. E é nesse livro que descobrimos qual o ponto fraco do anão. As mulheres. Em vários momentos ele lembra da mulher que tirou sua virgindade, de como Shae é importante pra ele… ele até salva Sansa da ira de Joffrey.

Véi… que capa foda

Uma marca desse livro é alta presença de sacanagem explícita. Se no primeiro livro tínhamos, no máximo, pessoas saindo de suas camas nuas e Shagga falando a todo momento que iria cortar o membro de fulaninho e jogá-lo para as cabras, em A Fúria dos Reis o negócio extrapola. Temos o uso das palavras “pau” e “buceta” a todo momento, além das relações sexuais de Tyrion com Shae, a nudez em praça pública de Sansa, a relação incestuosa de Theon com sua irmã, a conversa de Catelyn com Jaime e, algo que permeia todo o livro: o estupro. Como em toda boa guerra medieval (peraí, só medieval?), as mulheres pertencentes ao lado derrotado são estupradas como “prêmio”. No livro, estupros acontecem ou, pelo menos, são citados como possíveis acontecimentos, como na conversa entre Cersei e Sansa durante a batalha de Porto Real. Mas o estupro mais, digamos, “tcham” é a da filha da Senhora Tanda que, em plena revolta civil, é estuprada mais de cinquenta vezes em um beco e, depois, é encontrada nua vagando pela cidade.

Bom esqueci de falar o que está acontecendo em Westeros. Basicamente quatro reis reivindicaram poder após a queda de Robert Baratheon. Temos Joffrey Lannister em Porto Real, Stannis Baratheon nas ilhas dos Dragões (esqueci o nome correto), Renly Baratheon à sul (acho que é Jardim de Cima) e Robb Stark como Rei do Norte. Os Stark se enfrentam contra os Lannister enquanto Stannis, por meio da feiticeira vermelha, mata o irmão Renly, tomando parte de seu exército. Enquanto isso, no frio de Winterfell, os Greyjoy buscam  vingança contra os Stark e tomam a cidade. Na Muralha, uma expedição invade a Floresta Assombrada em busca respostas sobre os planos de Mance Rayder (este pretende invadir Westeros). E no outro continente, Daenerys viaja com seus dragões em busca de navios e homens para retomar seu reino.

No final do livro, Stannis marcha sobre Porto Real e perde. Theon é, aparentemente, morto por mercenários que vieram para ajudá-lo a defender Winterfell das forças restantes dos Stark.

Theon Greyjoy, tira essa armadura que você é moleque, ouviu?
VOCÊ É MULEKE!


Dois pontos de vista novos são adicionados ao livro. Theon vai às Ilhas de Ferro e, quando o poder sobe à cabeça, decide invadir uma Winterfell desprotegida com meia dúzia de gatos pingados. Vou te dizer que é bem interessante perceber o desespero dele à medida que a merda vem chegando. Suas atitudes são as de um fraco, totalmente dependente de seu pai e de sua irmã, apesar de odiá-los (provavelmente por isso mesmo).

O outro personagem novo é Davos, que vive ao lado de Stannis. Ele é um ex-contrabandista que se tornou um cavaleiro muito mais honrado que os outros. Seus conselhos dificilmente são seguidos por Stannis. Além disso, ele representa bem o medo que os homens do “rei de direito” possui acerca da feiticeira vermelha. Seu medo é estampado quando ele a leva para matar um senhor.

O cometa no começo do livro representa bem como qualquer pessoa ajeita um fato para seu lado. Cada um interpreta como quer. O fato é que, após os dragões nascerem, a magia retornou ao mundo. É como se o tecido da realidade dos livros de Spohr  tivesse se afinado, permitindo que magias pudessem ser usadas depois de tanto tempo. O livro continua com muitas conspirações políticas, mas ganha um ar de medo e descrença perante a magia que é sensacional.

A mulher bebe veneno e não morre; dá luz à espíritos assasinos:
SAI CAPETA!

Passando rapidamente pelos outros personagens: Jon tem uma queda em sua história, mas seu final neste livro deixa um esperança pela melhora do personagem em A Tormenta de Espadas. Várias coisas acontecem com Arya, mas acredito que dava pra sua história ser contada de forma mais dinâmica. O mesmo com Bran, que poderia ter suas ligações com os espíritos da floresta contadas de forma mais rápida. Daenerys e sua longa viagem só engatam do meio pro fim. Sua entrada no palácio/castelo/que-porra-é-aquela dos Imortais é muito foda e me fez lembrar do Exame Hunter em HunterXHunter. A parte de Sansa com o bobo é muito chata. Aquilo atravancou minha leitura várias vezes.

No mais, estou gostando de ver a evolução dos personagens, em especial das crianças e adolescentes. Até o final da saga, eles estarão adultos e será bem legal comparar. Demorei uma três semanas e meia para ler o livro, muito por causa do seu ritmo lento em comparação com A Guerra dos Tronos. Porém, dizem que o terceiro livro é o melhor. Então vou começá-lo já!

Review: A Guerra dos Tronos

Fazia tempo que eu não começava uma série de livros. Pra falar a verdade, a última série que comecei (e terminei) foi O Senhor dos Anéis. Não gosto muito de entrar num lugar desconhecido sem saber em qual Floresta Assombrada ele vai dar. Tipo, entrei numa época da vida (!?) em que quero certezas. Só aceito consagrações e nada de apostas. Quer dizer, não é bem assim, mas é assim.

Isto aconteceu com A Guerra dos Tronos. A obra se consagrou e, seguindo a modinha, decidi dar uma chance a essa chaprosca que é grande para dedéu (ainda se usa essa expressão?). Mas é como o JP disse no Nerdcast sobre o livro: é meio perigoso entrar numa obra que não sabemos se será terminada. Afinal, o autor tá velhinho e vai que…

Livro em que, na capa, o nome do autor está gigante.
Isso significa.



Sobre o livro, só tenho a dizer que é foda. Tipo, fazia tempo que eu não ficava empolgado com uma obra. Pensei em fazer uma leitura rápida mas, para não me cansar, fui saboreando cada página. Demorei exatas duas semanas pra ler (até que foi um tempo bom) e, no final, estava extrapolando o tempo que eu havia delimitado para a leitura (cerca de 3 horas por dia).

O enredo é épico. E a palavra épica é bem usada aqui. Ah! Cuidado com o spoilers a partir deste ponto. No começo do livro, você começa a fincar pontos fortes. Por exemplo: o rei é idiota (e de fato é), os Lannister são maus (assim como os Targaryen), os Starks honrados, a corte é um monte de puxa-sacos (?) e o resto são meros coadjuvantes. Só que, se você for pensar bem, os Targaryen foram tirados do poder no melhor estilo “extirpar o DEM da política brasileira”. Não sobrou quase nada, a não ser Viserys, que é um bostão fanfarrão que se acha, e Daenerys, que é praticamente uma criança que acata as ordens do irmão. O jogo vira quando Dany se casa com Khal Drogo, um cara foda que nunca perdeu uma luta e tem 100 mil seguidores (de verdade, não no Twitter). O irmão não consegue o que quer (homens para retomar os Sete Reinos), morre e Dany se torna uma mulher de verdade. O legal é reparar nessa transição da personagem. Só que aí tudo fode quando Khal Drogo morre, os seguidores vão embora e o filho nasce morto. Mas aí ela faz um ritual de magia negra LIKE A COLLOR e, dessa porra toda, saem três dragões (que haviam sido extintos). Só desgraça.

Do outro lado do mundo, no Norte, uma Muralha protege os Sete Reinos dos Outros, um povo selvagem que, no final do livro, você percebe que são capazes de fazer os mortos de levantarem com olhos azuis. Jon Snow é quem mostra a maior parte de como funciona a Muralha.


Se a Muralha é assim no verão, imagina no inverno…



Mas o principal ramo da história, ao menos neste primeiro livro, é a guerra dos tronos. Após saber que Jon Arryn (antiga Mão do Rei) fora assassinado e que as suspeitas caíam sobre os Lannister, Ned Stark aceita ser Mão do Rei Robert só para investigar a merda toda. Vários entreveros vão acontecendo entre os Starks e os Lannisters até culminar na prisão de Tyrion Lannister filho de Lorde Tywin (um cara motherfucker) por Catelyn Stark (esposa de Ned). Não vou contar tudo, mas ficamos sabendo que Tyrion era inocente e que, quem causava a merda toda era Jaime e Cersei Lannister. Nesse meio tempo, Robert morre e, ao invés de fugir, Ned fica em Porto Real (a capital dos Sete Reinos), pensando que poderia desmascarar os Lannister. Mas o idiota é considerado traidor e também morto. Nisso começa uma guerra entre os Stark e os Lannister. Estes últimos, pelo que entendi no final do livro, terão de enfrentar também Stannis e Renly (os irmãos do rei morto).

Vamos falar de dois personagens que, para mim, são os que mais mostram como a história é “de verdade”. O primeiro é Jon, filho bastardo de Ned Stark, que vai para a Muralha se tornar um membro da Patrulha da Noite. Ele percebe que, com a chegada do inverno (fator de suma importância na história… ou não) tudo pode mudar. A Patrulha se tornou um amontoado de inúteis e ele acha que pode transformar o poder da Muralha. Seu tio desaparece na Floresta Assombrada que existe para lá da Muralha. Ao saber da guerra, ele pensa em desertar mas, amparado pelos novos “irmãos” volta e fica sabendo que uma expedição será montada para saber o que aconteceu com seu tio. Aliás, é ele que enfrenta, junto com seu lobo, um dos zumbis que tentaram atacar o comandante da patrulha. Tenso. E quase amedrontador.


Tyrion é um anão motherfucker. Mais fucker do que mother



O outro personagem (pra muita gente, o principal) é Tyrion Lannister, filho de Tywin. Ele sempre foi rejeitado por ser anão, coxo e molenga. No entanto, ele é o cara mais esperto da história e, sempre com muito bom humor, consegue tornar a situação boa para seu lado. O importante deste personagem é que ele visita todos os lugares importantes. Ele vai para Winterfell (lar dos Stark) no começo do livro, passa pela Muralha, é preso e enviado para o Ninho da Águia, engana ladrões de estrada, conta como era o acampamento militar dos Lannister e, se torna tão importante a ponto de seu pai o enviar para Porto Real para governar no lugar de Joffrey, o sobrinho/novo rei/fazedor de merda que tomou o poder.

Com isso tudo, estou muito empolgado com o livro. Apesar do enfoque dele ser as conversas sutis e irônicas deixando de lado as batalhas sangrentas, a história é muito empolgante. Mesmo conhecendo como cada personagem age, você nunca a sabe a merda que ele pode fazer. Aliás, enquanto se lê, o “sentido de vai dar merda” vai só aumentando. É muito legal fazer o exercício da previsão de quando cada personagem morrerá e como os outros reagirão. Tentei adivinhar em muitas ocasiões, porém falhei miseravelmente em todas. Acabei A Guerra dos Tronos neste domingo, mas estou tão fascinado pela obra que vou começar a ler A Fúria dos Reis nesta segunda-feira mesmo. Por falar nisso, deixa eu começar.

Review: Cave Story

Cave Story não é um jogo inovador. Ele não traz uma jogabilidade nova. Você pode dizer que o sistema de upagem das armas é novo, mas não é uma maravilha. Seus gráficos são ultrapassados (fica entre NES e SNES). Sua história é bem clichê. Seu sistema de mapas é uma mistura de Mario com o aclamado Metroidvania. Mas ele é bom. Bom não, ótimo, maravilhoso.



Pode parecer um jogo comum, mas não é

Pra começar, Cave Story não é um jogo novo e nem foi feito por uma grande produtora. Muito pelo contrário: um maluco só (explica-se, ele é japonês) criou o jogo inteiro. Isso lembra muito os tempos do NES onde praticamente 3 ou 4 caras criavam um jogo. O que mais atrai no jogo é a sua velocidade no combate. Essa velocidade se dá por causa da faceta do long jump. O personagem é capaz de dar longos pulos e, nesses pulos, desferir dezenas de tiros.

As armas do jogo são os destaques. Cada uma é útil em uma parte do mapa. Por exemplo, as bolas de fogo são úteis em ambientes de descida, como a floresta que há no game. Os mísseis são para os lugares inalcançáveis e geralmente no alto. A metralhadora, como em qualquer jogo, é um tanto overpower, permitindo até a voar. Além disso, as armas são evoluídas com os triângulos amarelos que os adversários soltam. Com elas, você pode upar as armas até o nível 3. No entanto, caso você vá perdendo life a sua barra de experiência com a arma também vai diminuindo. Sorte que é apenas com a arma que se está usando.

Tá essa bagunça e olha que eu fiz a limpa na área

O esquema Metroidvania é uns dos mais bem usados depois dos jogos que dão nome a esse estilo. São várias idas e vindas no mesmo lugar. Uma das missões que mais bem explicam isso é uma em que você precisa buscar cinco cachorros perdidos em um mapa para ganhar uma chave (SPOILER: que acaba sendo roubada depois). Outra missão consiste em buscar elementos para montar um objeto.

Não consegui dar a screenshot enquanto voava
com a metralhadora. Sim, uma METRALHADORA

Já que falei de spoilers do jogo, preferi não trazer imagens de várias áreas. As screenshots que se vê aqui é de uma fase bem avançada do jogo, bem antes do chefão mais difícil do game.

Digo a mesma coisa que coloquei no post sobre Mari0. Se você é ligado nos gráficos e acha Modern Warfare 3 melhor que qualquer Unreal só por causa do número de polígonos, você está no jogo errado. Isso aqui é para os nostálgicos como eu. A trilha sonora tem aquela pegada de repetição como na época 16-bit, o que agrada muito. Os adversários são parados e atacam a esmo. Exceto os papagaios, os melhores adversários do jogo.


Aliás, papagaios do inferno que seguram caveiras que lançam ossos é uma das maiores viagens de ácido que já vi nos games. Mas, se pensar bem, está certo, por que todo papagaio é filho da puta. Se bem que os papagaios da série Donkey Kong Country não eram. Ah, foda-se.

Review: Mari0

Gênio. Não conheço o cara que desenvolveu este jogo, mas ele merece um prêmio, um menção na história dos videogames, ou um muito obrigado de todos que jogaram este game.


Vou fazer um review contando como é o jogo ou a história. Afinal, todos conhecem a história da maioria dos jogos do Mario. Bowser sequestrou a Princesa Toadstool, codinome Peach, e você tem que ir de mundo em mundo procurando por ela. Você mata Bowser várias vezes e em todos os castelos, exceto no último. A principal contribuição deste jogo foi ter definido as características dos jogos de plataforma.



No começo, morri muito por causa de inimigos
que saíam “do nada” dos portais


Portal 1 e 2 são duas obras-primas criadas pela Valve. Basicamente você deve avançar por diversas plataformas (olha o Mario aí) resolvendo puzzles. Seu visual minimalista é oposto do visual colorido e cogumelado de Mario. Quase tudo é branco, com algumas sombras e poucas cores.

Colocaram esse logo no Paint

Jogar Mari0 é engraçado porque te desafia a terminar o jogo de uma forma diferente. Eu já passei pelas aquelas fases fáceis dezenas de vezes. Meu objetivo, logo de cara, foi tentar zoar o jogo ao máximo. E se ao enfrentar o Bowser eu jogasse ele na tela seguinte, onde aquele Toad desgraçado fica? Não vou contar o que acontece, pois não solto spoilers.

Outro objetivo meu foi fazer as teorias darem certo. E se eu pulasse por cima do mastro (opa!)? E se eu passasse pela fase sem matar ninguém, só jogando todos nos buracos?Outras eram pura trollagem. E se eu enganasse Bowser aparecendo na frente dele e depois atrás (opa!)? E se eu passasse pela fase dando aqueles pulos de portal em portal, quase quebrando o mouse na velocidade dos cliques?

O jogo ainda nos proporciona um editor de fases sensacional, que nos faz querer ser melhores que o Shigeru Miyamoto ao esboçar este jogo. Depois nos damos conta que somos uns merdas, pois estamos pensando nisso mais de 25 anos depois. 

Me lembrou muito o ZSNES

Temos também as opções de transformar o Mario do jeito que quisermos. Não mudei o meu porque quis manter a “realidade”. Mas pra quem quiser, o negócio é bem completo. Dá pra mudar até as cores dos portais.

Tantos chapéus quanto Team Fortress

Se você não curte videogames, não jogue. Sério. Se você é um jogador casual também não jogue. Se você é o cara que liga apenas para os gráficos, não jogue. Vai ser decepção na certa. Agora, se você curte uma jogabilidade perfeita e um humor non-sense, baixe este game. Maravilhe-se.


Ah, e baixe aqui seu Mari0 antes que a Nintendo e a Valve processem os caras.