É com uma certa tristeza que vejo o país dividido em dois polos distantes de política (ou não distantes assim). Desde as eleições de 2014, pessoas que antes mal se conheciam tornaram-se inimigas em uma guerra que veio de cima, formada por políticos e marqueteiros com a única intenção de conquistar a opinião pública para o seu lado em vez de angariar adeptos de suas ideias e modo de ver o mundo. Partidos passaram a ser defendidos da mesma forma que torcedores de futebol defendem seus times e aqui entra também a violência, que não poderia deixar de estar presente.

Nessa rinha-de-galo política, onde 52% da população é chamada de “povo”, quando sabemos que boa parte dessa gente é “elite” (seja lá o que isso significa), e 48% é “elite” quando sabemos que é impossível existir essa quantidade de pessoas ricas no Brasil, quem sai perdendo é a unificação do país.

E essa galera que vê o Brasil assim?

A base disso é a mentalidade de que existem dois países dentro de um só: a elite e o povo. Pior: estes dois países teriam ideias tão contrárias que uma Caxemira de problemas seria pouco. A luta de classes se tornaria em uma guerra de classes. Olha, quando alguém fala em luta de classes, em combate entre pobres e ricos, olha… eu fico desgraçadíssimo da minha cabeça.

Quando aquele puto do Marx criou a ideia de que o mundo só evoluía graças à luta de classes, ele estava refletindo ideias de seu tempo e de eras passadas. De lá para cá, muita coisa mudou. Os cartistas conseguiram direitos nunca antes imaginados para os trabalhadores. A carga horária de trabalho, no geral, diminuiu (eu que trabalho 12 horas por dia não conta), os salários foram substancialmente melhorados e os direitos trabalhistas cobrem com sucesso os piores momentos que um trabalhador pode passar. Muita coisa pode ser melhorada? Claro que pode. Mas não é a luta de classes, este confronto que flerta com o belicismo, que vai mudar as coisas.

O maior problema da mentalidade da luta de classes é que ela coloca à disposição apenas duas formas de ver o mundo. Tudo é separado em dois balaios e o seu é sempre o certo. Não existem os jeitos direita e esquerda de se resolver o baixo nível de ensino nas escolas. As formas reacionária e progressista de se fazer uma reforma tributária? Pfff. “Vamos combater as drogas”, “Certo, chamem o petista e o tucano para vermos as duas únicas formas possíveis”.

Enquanto não aprendermos a resolver os problemas juntos, ficará difícil termos um país unido.

Em tempo, sobre o pronunciamento da Dilma ontem: sim, ele foi horrível. Incutiu ainda mais a luta de classes, dizendo que muitas pessoas são desinformadas por causa da elite que comanda os meios de comunicação:

“Os noticiários são úteis, mas nem sempre são suficientes. Muitas vezes até nos confundem mais do que nos esclarecem. As conversas em casa, e no trabalho, também precisam ser completadas por dados que nem sempre estão ao alcance de todas e de todos.”

Muitos reclamaram e gozaram de que o panelaço foi obra da “elite-branca-cis-hétera-machista-golpista”, mas pelo menos ninguém foi pro centro da cidade quebrar estabelecimentos públicos e privados em pleno horário comercial. Xingar Dilma de “puta” ou “vagabunda” também não é certo, uma vez que se pode criticar utilizando-se de outros argumentos mais embasados.

Sim, o país está uma bosta. Tudo que você faz tem que ter uma justificativa política para não agredir o próximo.

Bom, acho que é isso. Procurem viver melhor com aquela pessoa que pensa totalmente diferente de você. Dê um abraço no seu chefe. Essa é a mensagem do He-Man.

Update (10/03/2014): Vi agora que uma minoria (algo em torno de 3%) xingou Dilma daqueles palavrões listados acima. Cai em uma armadilha da luta de classes que só faz aumentar o burburinho de coisas pequenas para agredir coisas grandes.

One thought on “A luta contra a luta de classes

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