Lembro perfeitamente da primeira vez em que vi a bola oval voando na televisão. Quer dizer, nem tão perfeitamente assim. Minha memória é falha e eu costumo adicionar coisas que não vi às que eu realmente vi, somente para ter um cenário completo. Acho que todo mundo faz isso. Não chega a ser uma mentira, mas entraria na categoria das inverdades.

Era um jogo do Cleveland Browns e o quarterback do time (nem sei se já era o Hoyer naquele jogo; com certeza não era o Johnny Manziel, pois ele estava este tipo de coisas naquela época) estava em uma tentativa de terceira descida para uma porrada de jardas. Se eu não me engano eram 19 jardas. Eu não sabia naquela época mas, em uma jogada dessas, normalmente os caras colocam uns quatro wide receivers, um tight end e, se pudesse, até a mãe para poder receber a bola nessa lonjura toda. É uma jogada que todo mundo sabe como vai ser: arriscada, perigosa e nem tão recompensadora. Inclusive acho que o quarterback realmente lançou a bola para a mãe dele, pois ele foi interceptado. Com o tempo você percebe que, se você tem quarterbacks ruins como Hoyer, Jay Cutler ou Andy Dalton, compensa você tentar uma corrida de umas 10 jardas, sofrer o tackle, ser derrubado, posicionar melhor seu time em campo e mandar o punter descer a botinada pra devolver a posse de bola para o adversário. É o que Bill Belichick mandaria fazer nesta situação, até porque ele não é trôxa. Se bem que ele tem à disposição a dupla Brady-Gronkowski, então é outra história.

Sério, não sejam ridículos

 

Porém, como você vai saber o que o time tem que fazer se você nunca assistiu essa porra de futebol americano? Era o meu caso naquele dia. Pra você ver como eu sou burro: eu pensava que, se o cara conseguisse o objetivo, ele ganharia 19 pontos pela jogada. É preciso um conhecimento básico pra assistir, gostar e entender o playbook (ou “livro de jogadas”) de cada equipe. Com o tempo você aprende como os times atuam sob pressão, que tipo de jogada vai acontecer, quem são os alvos preferidos do quarterback, e outras dezenas de variáveis. É fato que o futebol americano não é igual ao soccer (ok, futebol; parei com os anglicismos). O futebol tem um objetivo claro, que é jogar a bola com qualquer parte do corpo que não sejam os membros superiores por entre as traves. Você não precisa saber a regra do impedimento para acompanhar uma partida ou saber quando é uma falta para dois toques. Você vê claramente quando ocorre uma falta, principalmente se a vítima for o Neymar. Bom, aí no caso é vítima, porque um desavisado pensaria que houve um assassinato em campo.

 

Gente, olha esse bug do FIFA15 e… PERA

 

Já o futebol americano carrega uma carga de tática e regras a serem aplicadas que é infinitamente maior. A primeira coisa a se pensar é o relógio. Quem tem mais tempo de posse de bola geralmente ganha o jogo. Nem sempre, obviamente. Faltas, sacks, repetições de tentativas de renovações de jogadas e perdas de posse de bola podem fazer com que seu ataque, que demorou oito minutos para chegar a uma ou duas jardas de fazer o touchdown, tenha que se contentar com um field goal ou, pior, chorar ao ver o adversário retomar a bola.

Não vou ficar aqui explicando regras, até porque o espaço deste post não seria suficiente. Quando comecei a assistir não sabia de regra alguma e somente umas quatro rodadas depois é que passei a entender. Então relaxa aí, fera. Tô aqui pra falar de outra faceta do esporte.

Como eu disse lá no começo, passei a assistir futebol americano em um jogo do Cleveland Browns na temporada passada (fim de 2013). Ou seja, eu tinha tudo para não gostar de futebol americano. Pra quem não sabe, os Browns fizeram uma temporada ruim em 2013, o que não traria nenhum atrativo para um idiota que nunca assistiu nada. “Mas então qual foi o motivo, porra?”, pergunta-se você. Eu te respondo: eu deveria estar assistindo um show de horrores no campeonato brasileiro e simplesmente fiquei de saco cheio daquilo. Provavelmente era uma partida do São Paulo, que estava tão ruim quanto o Cleveland Browns. Ou então era mais um daqueles empates em 0 x 0 do Corinthians que, se fosse um time da NFL, não empataria, pois raramente tal evento de igualdade acontece. Com certeza não era um jogo do Palmeiras, pois tal draga estava na segunda divisão (lugar de onde sai somente para passar vergonha nos últimos tempos). Mesmo uma partida ruim de futebol americano tem seus atrativos. Principalmente porque os confrontos dentro de campo são bem claros. Os wide receivers e tight ends enfrentam os cornerbacks e safeties. O quarterback e os gordões que estão ali na frente dele tem que aguentar a pressão da linha defensiva e por aí vai.

 

Mais um pouco quebrava a coluna

 

Outro fator que me interessa é o tempo de jogo, os replays e as revisões de jogadas. Querendo ou não, o futebol é vencido, na maioria das partidas, pelos volantes e armadores que sabem tratar bem a pelota. Por isso muitas vezes o jogo fica monótono com passes de lado, devoluções de bola e enrolação. Eu sei que eles estão buscando uma falha na defesa adversária, mas isso não é explícito. No futebol americano, às vezes uma jogada é tão clara que os comentaristas já circulam em amarelo qual será o jogador-chave do lance. Exemplo fictício: você tem um wide receiver bom, como o Jordy Nelson. Só que do outro lado tem um cornerback foda como o Richard Sherman. Se o Sherman se machucar e entrar outro boneco no lugar dele, obviamente que o técnico vai mandar boa parte das jogadas em cima do cara que acabou de entrar. Qual será a resposta do outro técnico? Dobrar a marcação. Mas, se ele dobra a marcação em um canto específico do campo, vai faltar em outro. É aí que surgem os espaços e a capacidade dos jogadores se superarem.

Bom, eu citei o Jordy Nelson. Pra quem não sabe (o que é seu caso, e eu dou os parabéns por conseguir chegar até este ponto da leitura), o Jordy Nelson é do Green Bay Packers. Quando passei a assistir futebol americano na temporada passada, o Packers teve uma dificuldade imensa em se classificar pois, no meio da temporada, o seu quarterback titular, Aaron Rodgers se machucou e ficou um tempão fora. E se um quarterback fica de fora é grande a chance de derrota. E foi o que aconteceu. Matt Flynn entrou no lugar de Rodgers, mantendo a equipe ainda na disputa por uma vaga mesmo perdendo quatro jogos e vencendo dois. Chegou a rodada final, jogo contra o Bears, maior rival da divisão. Vitória em Chicago (casa do adversário) com Rodgers voltando de lesão e destruindo o jogo.

 

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O Packers passou em primeiro na divisão com a incrível marca de 8-7-1 (oito vitórias, sete derrotas e um empate). No jogo de wild card teria que enfrentar o fortíssimo San Francisco 49ers (o jogo do gif acima), que tinha uma das melhores defesas na época, atrás apenas do futuro campeão Seattle Seahawks. Green Bay fez o seu melhor jogo na temporada e ainda assim perdeu. Pela garra que o time apresentou e a forma como Aaron Rodgers jogou, passei a torcer para o time. Na época eu nem entendia direito que Rodgers era um dos melhores quarterbacks da liga ao lado Peyton Manning, Drew Brees, Philip Rivers, Big Ben e Tom Brady (sim, o marido da Gisele Bundchen).

Só com as estatísticas e vídeos de jogadas na intertemporada que eu fui saber que Rodgers era um fenônemo. Muitos touchdowns, poucas interceptações, um cara decisivo em jogadas de pressão. Como os caras dizem: é um quarterback de elite. Citei as estatísticas, né? Acho que uma boa porcentagem da graça dos jogos é ver as estatísticas. Elas são tantas e tão complexas que você demora às vezes um tempão para compreendê-las. Existem as estatísticas para tudo o que você imaginar. Tudo. São geradas duzentas páginas de números por jogo e o que aparece na tela da televisão (aquilo que eu falei que era complexo) é só a ponta do iceberg.

 

Você pode não entender agora, mas essa foi uma jogada genial

 

Assistir futebol americano se tornou um hábito para mim. Chega domingo à tarde eu estouro minha pipoquinha, pego um suco artificial gelado e fico gritando feito um idiota quando rola uma interceptação. É um jogo que dá, tranquilamente, para ir no banheiro durante os timeouts, ou então pegar uma bebida na geladeira entre uma tentativa de descida e outra. Tem gente que não gosta das frequentes três horas e meia de partida (isso quando não bate as quatro horas), mas ele é o tipo de esporte perfeito para você que gosta de ficar nas redes sociais cornetando, lendo outros textos ou mesmo conversando com alguém do lado. Por isso eu convido. A temporada regular está acabou, estamos em janeiro e agora começam os playoffs (que é um jogo só e não cinco ou sete como no basquete ou beisebol) e, em 1º de fevereiro tem o Super Bowl com show da Katy Perry. Já tô ouvindo as músicas dela desde já para cantar no intervalo da partida em que o Green Bay Packers levará o título. Bora assistir?

PS: Estou escrevendo este post à pedido da amiga Giovana, que quer começar a assistir a parada. E estou correndo, porque daqui a pouco tem Arizona Cardinals x Carolina Panthers, o primeiro jogo dos playoffs.

 

music-iconSunday Night Football Theme – Carrie Underwood

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