Faz muitos dias que venho pensando num assunto e, cada vez que paro para (tentar) entendê-lo, mais ressabiado (como diriam os antigos) fico. Lembra do atentado na maratona de Boston? Vá lá, tente lembrar. Talvez já tenha se passado tantas informações pela tela do dispositivo em que você está lendo este texto que você nem lembre mais o que foram os atentados. Ok, você ainda lembra. Tente resgatar em sua memória o sobrenome dos irmãos que cometeram esta atrocidade. Já estou começando a pedir demais, né? O nome das regiões da Rússia onde eles nasceram com certeza você se lembrará. Uma era a Chechênia (bem mais fácil de se lembrar) e a outra… qual era outra mesmo?

Pode ser que você lembre de tudo isso. Pode ser que não. Aos que não se lembram, peço que fechem os olhos e resgatem aí a cena da primeira bomba explodindo. Eu tenho a mais absoluta certeza de que você lembrará. O som, a fumaça subindo, o senhorzinho tropeçando e caindo assustado com o som da bomba. Essa imagem, tantas vezes repetida, é de fácil lembrança. Assim como as (poucas) imagens do primeiro avião atingindo uma das torres do World Trade Center em New York.

Então, a pergunta que quase todo dia ronda a minha cabeça (não pense que estou obcecado nisso) é: e se o ser humano modelo 2013 não estivesse na maratona de Boston? Quando digo “modelo 2013” me refiro a este que tira 832 fotos com o iPhone para postar no Twitter, Facebook, Instagram ou qualquer outra rede social. Repare também que o modelo 2013 é fortemente influenciado nos modelos presentes desde 2007 e 2008, quando os smartphones começaram a invadir o mercado com peso. Eu, que estou a milhares de quilômetros de Boston, vi tantas imagens a respeito do assunto quanto àquele que odeia qualquer tipo de esporte mas que morava a dois quarteirões da chegada da corrida.

 

O Google Maps não conseguiu estabelecer uma rota. Isso aqui é um fim de mundo mesmo
O Google Maps não conseguiu estabelecer uma rota. Isso aqui é um fim de mundo mesmo

 

Como você, leitor esperto do Faltou Mana deve saber, o 4chan e o Reddit fizeram ~investigações paralelas~ para saber quem eram os terroristas que explodiram as bombas. E falharam miseravelmente apontando como suspeitos dois caras que também usavam mochilas mas que, segundo o FBI, não possuem qualquer ligação com o caso. Até jornais sérios chegaram a publicar as fotos dos “suspeitos do Reddit”, levando a parada à sério. Imagina só que foda. Os nerds, utilizando todo seu tempo livre e fotos do local (sendo que o FBI trabalha com muito mais do que simples fotos), conseguiram fazer o trabalho que a polícia não conseguiu. É o “crowndsourcing da investigação”, em tempo real na thread da home page de um maiores sites do mundo, acessível a dois cliques para observar, xingar, comentar, ~ajudar~, salvar, printar e conspirar. É a realidade levada às últimas consequências, exposta para todos (devidamente guardados pelo anonimato) darem sua contribuição. A realidade extrema, transparência total.

Por sorte todos ali estavam errado. Ainda prefiro continuar acreditando nas autoridades do que em um redditor autointitulado xjx1337.

No entanto, essa transparência total, realidade extrema, é vivida por cada um de nós no dia a dia sem que isso seja percebido. Tomemos como exemplo aqueles que (ainda) ditam os rumos da internet: os nerds. Suas vidas e frustrações (mesmo que manipuladas por tweets que mostrem a presença de vida ~normal~), seus gostos e desgostos, seus likes e seus hates, suas preferências (fanboyismo) e seus conteúdos novos (devidamente registrados em check-ins para consultas futuras). Pegue tudo isso. Todas esses pensamentos, zuêras, descontrações, raivinhas, tudo é compartilhado nas redes sociais. Como diria Jean Baudrillard, “O ‘como se nós lá não estivéssemos’ sendo equivalente ao ‘como se você lá estivese’”. Baudrillard se referia a um reality show da TV, mas aqui vou além (olha a minha ousadia) e estou levando isto para o meu ambiente. E, como no exemplo recém-citado, deixo meu check-in aqui: neste momento estou lendo “Simulacros e Simulação” para o livro que estou escrevendo (e que algum dia será lançado, podem me cobrar… algum dia). Deixo registrado também que gostaria de não cometer os mesmos erros dos Wachowski. Mas, se isso acontecer, que pelo menos o dinheiro ganho seja comparável.

O que as redes sociais provocam nestes ~estranhos seres~ (que, muitas vezes, até eu me englobo)? Aquilo que não tem “significado algum” ganha status compartilham-se referências, cultua-se Star Wars, Senhor dos Anéis, Game of Thrones e The Walking Dead e constrem-se altares para Ang Lee, Peter Jackson, Tarantino e Downey Jr. Histórias fantásticas de ficção científica e fantasia são a base. E pela internet tudo isso é misturado, comentado e expandido. O real já não existe mais, pois se pensa em como personagens reagiriam a essa situação, se proferem frases como “no Super Nintendo era melhor” e crossovers são recriados com o único objetivo da imaginação (se imagina uma real-idade onde seres imaginários se enfrentam).

 

Crossovers estão em um terceiro nível de realidade
Crossovers estão em um terceiro nível de realidade

 

Vou seguir copiando Baudrillard (kibando, segundo alguns). Continuemos no estereótipo do “nerd internético”: dificuldade em relacionamentos, contas em todas as redes sociais já inventadas, sabe discutir sobre cinema, games, quadrinhos e livros, compila referências, etc. Aquilo que vocês já sabem. Se os Loud se destruíram com suas imagens na TV, os nerds (que talvez nem sejam nerds, mas se comportam como tal) constroem suas imagens a cada novo “Bom dia” dado no Twitter. Todos os dias são pequenos novos shows que as comunidades de nerds, sempre interligadas, dão nas redes. Todo dia tem uma coisa nova. Todo dia tem uma merda.

Mas esta constante exposição significaria uma realidade própria do nerd ou do ambiente que ele frequenta? No caso do atentado em Boston, os membros do Reddit quiseram criar uma investigação paralela porque se achavam realmente capazes de descobrir os criminosos (por serem ~nerds~ inteligentes) ou porque o meio internet força essa colaboração e troca de informações? A mesma coisa para os outros nerds que nos rodeiam no Twitter. Eles realmente são ~inteligentes~ por conseguirem acumular tanto conhecimento ou é apenas a internet que possibilita qualquer compartilhamento e um banco de dados infinito? Eu utilizo tils irônicos porque sei quando usar esta ~ferramenta de comunicação~ ou porque fica legal usar isto na internet de forma a atrair outras pessoas que entendam esta linguagem?

Acredito que é um pouco dos dois. Porém, qual é a participação de cada um nos comportamentos que tomamos na internet? Gostaria de ir além nessa discussão. Enquanto eu não resolver isso na cabeça não vou ficar tranquilo. Sinto que ainda dá para eu falar sobre o fim da passividade quanto a informação (e aqueles que, indo contra a maré, já não querem saber mais, já não querem discutir mais), sobre o que é a informação hoje (será que nós somos mesmo a informação ou o que nós temos ou como reagimos é informação? Esta reação é realmente nossa?). Ah! Chega! Se você puder ajudar esse maluco aqui, comenta aí embaixo.

2 thoughts on “A simulação dos nerds

  1. Eu acho que se trata do aumento exponencial da conectividade. Estou certo que muitas mesas de bar elaboraram teorias sobre os atentados. Mas o monte de coisas que aparece na internet permite fazer isso numa maior escala.

    O próprio termo nerd foi diluído. Atualmente nerd significa “aficionado por cultura pop”. Não quer dizer que entende de computadores, literatura, cinema ou o que seja. Quer dizer que tem um contato superficial e constante com essas coisas.

    Isso se torna claro quando eu ouço um podcast gringo e vejo a mesma opinião nos comentários de um blog brasileiro. Só o aspecto mais óbvio é propagado pela internet.

  2. Cara, desse jeito você vai quebrar o tecido da realidade, e trazer os seres dos crossovers para essa camada Hahaha

    Ps: falando sério agora. É como o cara falou aí em cima bro. A internet tornou o alcance pelas coisas muito fácil e superficial. Quase não existem mais dificuldades.. As coisas são vistas, e esquecidas no próximo assunto.

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