Tava estudando aqui para escrever o background de alguns personagens do livro que estou escrevendo (sim, é isso mesmo; e é um livro de ficção científica) e me deparei com alguma dúvidas éticas a respeito da relação entre robôs e humanos. Já que eu estava precisando divagar e pensar em merda, decidi compartilhar com vocês tudo isso aqui. Afinal pra quê ficar segurando tudo isso só para colocar na história meia-boca que estou escrevendo? Não faz o menino sentido. Tá, até faz sentido, mas foda-se.

Deixo claro que as três leis da robótica do Asimov foram abandonadas aqui. Na história e mundo que estou criando, os robôs podem ferir seres humanos ou permitir que eles se machuquem. Isso desde que eles sejam programados para isso. Mas as outras duas regras estão valendo aqui, afinal ele ainda tem que seguir as ordens dos humanos e tem que proteger sua existência. Percebi agora que dois terços das regras ainda estão valendo. Percebi também que fui idiota em falar de abandono das regras do Asimov. Percebi que fui idiota como sempre.

A história se passa no final do século XXII e, nessa época, já há tecnologia para que os robôs consigam copiar praticamente todas as funções dos seres humanos. Bom, vocês vão entender melhor a partir das perguntas e das respostas.

 

Um robô é um ser vivo? 

O que podemos considerar como ser vivo? Essa é uma questão complicada, uma vez que, nessa época, já temos robôs capazes de gerar seu próprio material genético. Talvez a maior discussão esteja na reprodução. Um robô que produz um robô a partir de peças metálicas pegas em qualquer lugar pode ser considerado um ser reprodutor? Ou então robôs de verdade são apenas aqueles que são criados por humanos? Já é possível que um robô tenha um sistema reprodutor, completo, inclusive com órgãos sexuais. Entramos aí em outro problema: um robô tem o direito de ser semelhante a um humano quanto a sua imagem? Ou eles tem que ser diferentes para não causar problemas de identificação? Se eles forem diferentes, então eles não possuem os mesmos direitos dos seres humanos, uma vez que nós somos capazes de nos transformarmos em qualquer coisa. Somos capazes até mesmo de nos tornarmos robôs, uma vez que órgãos, ossos e outras partes do corpo podem ser substituídos por componentes robóticos.

 

Quem é quem, quem será meu bom?
Quem é quem, quem será meu bom?

 

No caso de uma reprodução robótica, quem iria programar o robô gerado por dois outros robôs?

Sendo os robôs ainda dependentes e ajudantes do ser humano (mesmo com alguns direitos assegurados), como ficaria o desejo de um robô de se reproduzir, gerar um novo ser inspirado nele? Primeiramente, para este robô se reproduzir, foi necessário que um ser humano tenha colocado em sua programação um código responsável por querer fazer isso. Neste caso seria esta pessoa a responsável pela programação do novo robô? Afinal, um novo robô gerado por robôs ainda deveria estar ligado ao ser humano original que criou aquela família ou deveria ser “libertado”?

 

Relacionamentos entre humanos e robôs são legais? 

Imagina o choque na sociedade quando as primeiras pessoas passarem a ter relações sexuais com robôs. Logo depois, teremos as primeiras tendo filhos com esses robôs. Depois teremos a velha guarda rejeitando o casamento entr humanos e robôs, semelhante ao que temos hoje com o casamento gay. Se o pessoal quer controlar quem enfia o quê no cu, imagina com aqueles que deixam um ser metálico enfiar um ferro (nesse caso, de verdade) no orifício anal? Demorarão anos para que isso aconteça. Haverão protestos e mais protestos, mas ainda assim a lei passará. Mas como ficarão os sistemas de pensão uma vez que um robô não morre e a vida de um ser humano é finita? Mesmo em futuro onde o ser humano se torne imortal, ainda poderemos morrer em acidentes. Já os robôs podem ser reconstruídos. Bastante complicado.

 

Os robôs tem direito a gerarem (construírem) seu próprio DNA para se reproduzirem com e como humanos? 

Um dos assuntos mais polêmicos. Afinal, dois conceitos de vida ainda são bem distantes entre robôs e humanos: crescimento e reprodução. Um robô não precisa de células. Seu corpo pode ser formado por uma espécie de gel que simula a pele. Já a criação de uma DNA próprio iria complicar. Eles poderiam ter um sistema interno que só fabricaria porções de DNA quando precisassem. No caso, em relações sexuais. Mas esse sistema de fabricação poderia escolher características para um ser humano. É um dos problemas que temos hoje em dia. Todos sabem que, se deixassem, a maioria das pessoas escolheriam o sêmen de doadores altos, loiros e de olhos azuis. Como um robô decidiria por isso? Seria ético e moral escolher as definições do próprio filho?

 

Antes de isso tudo, haverão pessoas que vão querer fazer sexo com robôs. Se o robô é um ser vivo e você o usa única e exclusivamente para o sexo, ele se torna um escravo? Afinal, robôs tem que receber salários? 

Uma robô-prostituta seria uma coisa perfeita (do ponto de vista sexual): sempre estaria disposta, “conservada” e poderia trabalhar 24h por dia, recarregando suas energias com o calor do(a) parceiro(a) sexual ou enquanto ficasse deitada na cama. Mas seria legal (do ponto de vista jurídico) manter uma robô escrava sexual? Onde ficariam os direitos do robô no quesito liberdade? Se um robô não se cansa e nem precisa se alimentar, precisaria ele receber salários? Lembremos que, ainda assim, robôs precisariam renovar seus dispositivos de tempos em tempos, trocar o gel que simula a pele e consertar qualquer defeito que surja. Quando existirá a equiparação de salário entre robôs e humanos?

 

Uma dúvida que a sociedade resolve em menos de 140 caracteres
Uma dúvida que a sociedade resolve em menos de 140 caracteres

 

Os seres gerados biologicamente de uma relação entre humanos e robôs são registrados de que forma?

Na certidão de nascimento dos seres gerados dessa relação vem marcado que tipo de… origem? São meio-humanos ou meio-robôs. Como serão trabalhadas as escolas para que essas crianças não sofram bullying? Haverão leis especiais para elas?

 

Robôs podem adotar crianças humanas? Robôs podem gerar humanos?

Poderia um ser humano ser criado por robôs? Levando-se em conta que, neste cenário, os robôs já ajudam na criação de infantes há muito tempo. Mas serem pais de humanos? Psicólogos dirão que as crianças se espelham nos pais e não conseguirão se espelhar em um robô. Mais complicado ainda quando dois robôs gerarem um humano a partir de DNA criado por eles mesmos. Isso será permitido? O tempo dirá.

4 thoughts on “Considerações éticas (e sérias) sobre robôs

  1. Ideias interessantes. Eu jogaria um conceito a mais aí para bagunçar um pouco mais: a ideia do “zumbi filosófico”. O zumbi filosófico seria um ser que responde exatamente como um ser humano responderia, mas não teria consciência.

    Por exemplo: um zumbi filosófico, colocado pelado no meio da neve, tremeria, cruzaria os braços e até reclamaria “brrr, que frio!” mas não sentiria a sensação de frio.

    O problema é: como nós saberíamos a diferença? Sensações, sentimentos, pensamentos, etc são experiências puramente subjetivas. Nós as experimentamos, percebemos os efeitos nos outros, mas não sabemos exatamente o que se passa na cabeça deles. Não temos acesso à consciência alheia.

    Estou dando essa volta toda para chegar ao seguinte ponto: quando os robôs chegam nesse nível de sofisticação, como é que vamos saber se não são humanos? O próprio filme Blade Runner lida com esse problema. Os robôs deles são orgânicos, os replicantes. O problema chega a tal ponto que apenas um teste de medição de empatia pode diferenciar humanos de replicantes, pois não dá para medir diretamente a consciência deles (seja lá o que isso seja).

    Gostei das suas ideias, ótimo post!

    1. É por isso que em Blade Runner os robôs/replicantes possuem lá o sistema de durar apenas quatro anos. Mas, pensando para o uso do robô em atividades normais no dia-a-dia, você jogaria fora um robô que necessitou de um grande investimento para a compra? Não. Como nos computadores atuais, você vai trocando algumas peças, fazendo upgrades até chegar em um momento em que o robô se torna tão obsoleto que se faz necessária a troca. Ainda assim você salva as memórias, faz backup. Quanto ao zumbi filosófico, acho realmente possível que sentimentos (e a consciência) possam ser simulados. Então acho difícil conseguirmos diferenciar níveis de consciência. É o que se pode ver aqui (se forem aplicados em robôs): http://jonlieffmd.com/blog/feelings-and-body-maps-in-the-brain

  2. oi cara que legal esta discussão , otima para reflexão e tudo isto não está tão longe não…
    tudo o que vc colocou em pauta são coisas ou causas que inevitavelmente vão acontecer e por incrível que pareca , vão ter que entrar para as normas jurídicas, ou seja, vão ter que ser inseridas no direito civil, estabelecendo regras de condutas , etica etc e tal … incrível mas esta materia serve até para se fazer (não copiar e não tão pouco copilar) manografia, teses e outras coisas que hoje, pode não serem realistas mas no futuro muito próximo ,,,,, gostei parabéns pela materia.

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