Quando eu ainda estava lá pelo segundo termo da faculdade, lembro de ter feito um texto em que argumentava o quanto os brasileiros acreditavam em Deus (e em outros deuses) e como isso nos atrapalhava no que diz respeito ao avanço da sociedade. Claramente me inspirei em um antigo texto de Diogo Mainardi, em que ele dizia que “O Brasil tem deus demais”. O legal é que eu escrevi esse meu texto para uma aula de Língua Portuguesa que era dirigida por uma professora extremamente católica. Naquele semestre eu havia tirado 9,5 no primeiro bimestre da matéria dela (algo inédito em todos os muitos anos que ela dava aula), o que me colocava entre Deus (nota 10) e a própria professora (nota 9). No segundo bimestre, mesmo fazendo uma redação ainda mais foda do que a dos primeiros dois meses, tirei um 7,5. Aliás, depois que eu li aquela redação em voz alta na sala, a professora ficou entreolhando para todos os alunos.

De 2009 para cá, posso afirmar que a situação só piorou. O Brasil continua um país impregnado por mandingas, superstições, pragas e religiosos mal-intencionados da pior espécie. É triste dizer, mas nada mudou. Nas últimas semanas então, mais exemplos de “deusd+” surgem aos montes. É Silas Malafaia contra os gays, é Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos (colocado lá pelo nosso governo “disquerda”), é intolerância religiosa e anti-religiosa em todos âmbitos, é um “É casado? Tem filhos?” (“É cristão?”), é uma necessidade de evangelização, cristianização, belzebuzificação, whateverzificação e tantas outras coisas tão idiotas e inúteis que me dão nojo. Sério, deus entra em qualquer discussão com uma facilidade inacreditável. Assim, como meu pênis, meu deus é maior que o seu.

 

Posso aumentar o meu deus. Chupem essa!
Posso aumentar o meu deus. Chupem essa!

 

Em 2009 eu ainda não tinha visto o fundamentalismo tão perto da minha casa. Nesse período vi surgir aqui na capital emérita do Faroeste Paulista um grupo de crentes de uma Assembleia de Deus qualquer que utilizam uma túnica de única cor. Mas somente as mulheres. Os homens estão livres disso. Nunca tive o prazer de conversar sobre religião com uma pessoa dessas, mas certamente o motivo de usar túnicas é para não profanar o corpo. Queria saber, inclusive, como se dá a reprodução desses seres. De verdade, queria um dia perguntar porque elas usam aquelas coisas. Naquela época, os jovens católicos não tinham essa pira de casar virgem. Não existia o movimento dos que “escolheram esperar”. Agora ocorre essa supervalorização do sexo.

No futebol, o goleiro do Botafogo aparece com um peixe tatuado na cabeça e um monte de gente fica incomodado. “Meldels, meu filho não pode ver isso pela televisão”. Já repararam que estamos superprotegendo nossos filhos de ter contato com outras pessoas iguais a nós? Provavelmente nossos netos nascerão e viverão em cidades frequentadas somente por aqueles que pensam e rezam da mesma forma. Colônias religiosas. Esse é um bom nome. Mas olha só que bom: será o fim da violência. Só que não. Minha colônia tem mais deus que a sua.

O Brasil é um país miscigenado, com diferentes etnias que convivem pacificamente até saber que o vizinho pratica magia negra. Tava conversando com uma pessoa e disse a ela que sou pessimista. Ela, de cara (e como um bom matuto), rebateu “Você não confia em Deus?”.

Outra coisa que não entendo é o movimento reverso dessa coisa toda. Existe, por exemplo, a ATEA. Me diz aí: pra quê os ateus precisam ter um órgão central para organizar pensamentos descentralizadores? Se deus é o centro de todas as coisas, por que diabos os ateus se reúnem? Não dá pra entender. Se você é ateu, pronto. Acabou. Não é necessária uma evangelização ateia. Não é necessário retirar o “Deus seja louvado” das cédulas. Se você não acredita, aquilo não te incomoda. Os ateus dessa organização falam tanto de deus e das coisas religiosas que me surpreende como eles se tornaram ateus. Haja força de vontade para serem do contra. O papa renunciou? Ódio e conspirações são perpetuados. Um pastor deu uma declaração polêmica (uma polêmica de deus, é bom deixar claro)? Ódio é disparado mais uma vez. A falta de deus foi embora com a falta de respeito. Peguei um tweet aleatório só pra representar aqui:

 

Taí. Cada um na sua.
Taí. Cada um na sua.

 

No Estado, que supostamente é laico, as manifestações de deus são as mais perigosas. E são as que mais me incomodam. Essas sim precisam ser combatidas, pois afetam todas a sociedade. As outras manifestações atacam pessoalmente e nada que uma boa discussão não resolva. Marco Feliciano, um pastor que já atacou gays e negros, se tornar presidente da Comissão de Direitos Humanos é uma piada tão grande que dá a volta e se torna um “agora a porra ficou séria”. Outra coisa: nunca entendi movimentos como as da “bancada cristã”. Não sabia que Jesus atuava na política romana para evangelizar as pessoas.

Sinceramente não vejo soluções para eliminar deus das coisas mais básicas, das relações mais simples da sociedade. Somos uma sociedade que confia no poder de deus, mas ele não ajuda em nada para termos uma infraestrutura melhor. Depende-se muito deus por aqui. Dissemos muito “se deus quiser”. Taí, toda vez que vocês me ouvirem dizer “se deus quiser”, podem ter certeza que estou sendo irônico, sarcástico, troll ou qualquer que seja o nome que você dá ao meu desprezo perante sua ignorância. E olha, você vai ouvir eu dizer isso muitas vezes. Se deus quiser.

One thought on “Garçom, tira um pouco de deus do meu copo?! Obrigado

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