– Enforcamento parece ser o esporte favorito por estas bandas – disse Sor Hyle Hunt – Se eu tivesse umas terras por aqui, plantaria cânhamo, venderia cordas e faria uma fortuna”

Faz mais ou menos um ano que comecei a fantasia épica das pobres almas que vagam por Westeros (e pelas Cidas Livres e Para-Lá-Da-Muralha e Do Outro Lado do Mar). Em uns cinco meses li os três primeiros livros, sem pausas. Não conseguia parar de ler. O motivo principal era que acompanhar os diálogos de personagens fodas como Tyrion Lannister, o Duende, o Maneta, o Herói das Águas Negras, havia se tornado de certa forma tão viciante que era impossível abandonar aquilo. Eu não queria abandonar os meus melhores amigos que conversavam, choravam, brigavam e morriam (ô se morriam). Mas aí veio uma parada chata pra caramba, intitulada academicamente de TCC. Eu ficava boa parte do dia lendo fichamentos e tentando encaixar uma coisa na outra com uma linguagem bacana e, quando tinha tempo pra ler, percebia que meus olhos estavam cansados. Muito cansados. Não conseguia ler. Mas aí acabou faculdade, acabou TCC, acabaram-se os compromissos noturnos e, um mês atrás (ou quase isso), pensei: “Tá na hora de voltar a ler as Crônicas”. Consegui ler O Festim dos Corvos.

No começo do parágrafo anterior eu disse que não conseguia me separar dos diálogos da série. Só para me sacanear, O Festim dos Corvos não tem tantos diálogos de tirar o fôlego. Dois dos melhores personagens, Tyrion e Jon Snow, só aparecerão em A Dança dos Dragões. Eu não gosto de bisbilhotar sobre um livro na Wikipedia antes de ler, então não sabia que eles ficariam de fora, bem como Daenerys, Bran e Stannis. Comecei o livro esperando como iria se desenrolar o apoio de Jon Snow a Stannis depois da batalha (ou melhor, massacre) em Castelo Negro. Comecei o livro esperando pela fuga de Tyrion após matar seu pai, o poderoso Tywin Lannister. Mas não, eles não estavam lá. Isso me decepcionou fortemente. As histórias de Brienne e Sam são contadas muito por pensamentos, mais do que por diálogos. Isso porque Brienne sempre tem medo de ser estuprada em qualquer lugar em que ela dorme e por ela ser uma pessoa de poucas palavras, muito por causa de sua origem e de seu corpo. Já Sam é muito covarde para tomar frente em qualquer situação. O medo da reação das pessoas, da sua família, dos Irmãos Juramentados e até de pessoas que ele não conhece, lá em Bravos, faz com que suas ações sejam, principalmente, dadas em pensamentos.

Cersei tem relações lésbicas neste livro. Quem não gosta de ver duas mulheres se pegando? (olha o preconceito)
Cersei tem relações lésbicas neste livro. Quem não gosta de ver duas mulheres se pegando? (ó o preconceito)

Os únicos personagens que realmente falam pelos cotovelos são Cersei e Jaime. Cersei é a personagem principal do livro. Todas as ações se dão em Porto Real. Ou então por causa de ações dela. Os momentos em que eu mais me divirtia eram seus diálogos com Qyburn, que substituiu Varys na posição de conspirador e sabe-tudo. Os diálogos de Cersei e Qyburn quase superam os de Tyrion e Bronn nos outros livros. Quase. No entanto, eles não são numerosos. Já Jaime tem seus grandes “diálogos” com o mudo Ilyn Payne. Mas nada supera o incrível diálogo de Jaime com Daven Lannister. Saca só essa passagem:

Sor Daven soltou um resmungo.

– Sabe o que é o melhor nos heróis, Jaime? Que, como todos morrem jovens, os demais pegam mais mulheres. – estendeu o copo ao escudeiro – Encha outra vez e eu também direi que é um herói. Tenho sede”

Muito bom. Para você ver como esse livro não é constituído de frases e diálogos marcantes, o mote principal da história é a desconfiança de Jaime a respeito de Cersei (que é mútua, por sinal). E esse sentimento de traição incestual fica marcada pela grande frase que Tyrion disse a Jaime quando este soltou aquele da prisão, lá no final do terceiro livro:

…ela anda fodendo com Lancel e Osmund Kettleblack e provavelmente até com o Rapaz Lua, pelo que sei…”

Até quando não está presente Tyrion é importante.

As histórias de Arya e Sansa Stark, apesar de andarem muito devagar, são, pra mim, mais fáceis de acompanhar que as de Brienne e Sam. As de Arya lembram aqueles treinamentos que os personagens de mangá passam para ficarem mais fortes. E, no final, OH MEU DEUS, NO FINAL ELA FICA CEGA. Véi, como assim? Tô tentando entender aquilo até agora. Já os capítulos de Sansa são bem legais por causa de Petyr Baelish. Uma vez no Facebook um cara disse pra mim que empacava nos capítulos da Sansa. Pra mim, o que leva seus capítulos para frente são as conspirações de Petyr que, como eu já previ no review do último livro, um dia ainda será Rei Petyr. E provavelmente morrerá por causa disso. Podem favoritar para a COBRADA.

Nas Ilhas de Ferro parece que estamos em um mundo distante, assim como nas histórias de Daenerys. Pilhagens, batalhas marítimas, navios, tudo naquele ambiente de pirata que, na minha opinião, foge demais dos capítulos com cavaleiros andantes, donzelas e essas coisas todas. Foge do ambiente, mas é muito divertido. A forma como o Olho de Corvo toma o poder e esculacha o irmão e a sobrinha é muito bom. Você se sente como se fosse um daqueles bárbaros, sujos, barbudos, carrancudos e gritando obscenidades. Foi um dos pontos altos. Já que toquei no assunto, alguém conhece um bom livro com piratas? Tô querendo ler um assim.

 

Pyke é um lugar muito procurado pelos praticantes do bungee jumping
Pyke é um lugar muito procurado pelos praticantes do bungee jumping

 

A história de Cersei, a melhor, corre daquele jeito: ela resolve um monte de problemas e, nos momentos de folga, procura um jeito de acabar com Margaery. Cersei representa a acumulação de riquezas desenfreada, mas acaba se fodendo (coisa que ela gosta muito, mas apenas no sentido bíblico) quando dá poderes demais para septões, ou seja, para a igreja, e esta se volta contra ela.

Tenho de dizer que O Festim dos Corvos é sustentado por dois grandes pilares: a religiosidade/fundamentalismo e o desespero/barbárie.

Ainda não li A Dança dos Dragões (acabando esse review começarei o quinto livro sem perder tempo), mas pude perceber que as histórias do quarto e do quinto livro é o período entre-guerras. Depois da Guerra dos Cinco Reis, Westeros virou uma bagunça. As casas Tully e Stark foram obliteradas. Dessa forma, o Norte e o Tridente viraram uma bagunça. Todo mundo está desesperado, fodido e, com isso, “aceitam Jesus” mais fácil, como, por exemplo, Lancel Lannister. Os foras-da-lei/rebeldes/loucos de Dondarrion, Catelyn Stark, Cão-de-Caça entre outros se tornaram seguidores do deus vermelho e ganharam aqueles poderes de ressuscitar as pessoas, ver além e aquelas paradas todas. Não dá pra saber o que eles vão fazer. Não posso nem dizer se Brienne foi morta mesmo pela sua senhora/zumbi-chefe. Só saberei se ela morreu mesmo no sexto livro. Ou não. Aliás, sua “morte” faz parte daquelas mortes em câmera lenta, em que a pessoa vê toda a sua vida passar em milésimos de segundo. Acho isso muito legal.

Ao mesmo tempo, os septões ganham muita força em Porto Real após ganharem o direito de se armarem. E eles começam a fazer práticas nada boas, como a de chicotear pessoas (vê-se isso em Osney Kettleblack). Já Arya aprende várias coisas a respeito do deus das mil faces. Em suma, O Festim dos Corvos é o livro mais religioso até o momento. E provavelmente veremos mais disso nos próximos livros. A história está se tornando cada vez mais tarantinesca, com rumos imprevisíveis e com a magia está se tornando cada vez mais presente.

Tem uma passagem sobre religião que há de se destacar. É a que faz uma crítica sobre a supervalorização que há do sexo. Quando Sam não quer mais olhar para Goiva depois ter transado com ela, Kojja dá uma grande lição:

“ – Não há vergonha em amar. Se os seus septões dizem que há, então seus deuses devem ser sete demônios. (…). Que deus cruel e louco daria aos homens olhos e depois diria para que os deixassem sempre fechados, e nunca olhar para toda a beleza do mundo? Os deuses deram-lhe isso por uma razão também, para foder. Para a concessão do prazer e criação de crianças. Não há vergonha nisso”. Como se vê, essa é uma grande aula de educação sexual.

Mas a característica do livro que eu mais gosto é o desespero. Em especial nas aventuras do Tridente, percebe-se que o desespero chegou ali e ficou. Todo mundo está desconfiado. Uma das grandes causas disso é que os grandes combatentes e líderes de antigamente se foram. Jon Arryn, Eddard Stark, Robert Baratheon, Hoster Tully, Balon Greyjoy, Tywin Lannister e outros, todos a seu tempo, se foram. Os que sobraram foram apenas os deturpados de espírito, os fracos ou aqueles mais espertos que preferem as retiradas estratégicas do que o combate frontal. E, assim, as brigas passaram a ser internas. E, como Victarion Greyjoy disse no começo do livro, “Nenhum homem é tão amaldiçoado como aquele que mata um dos seus”. E essas brigas acontecem em Porto Real, nas Ilhas de Ferro e em Dorne, onde uma família inteira é presa.

 

Se Game of Thrones fosse brasileiro, Lima Duarte faria o papel de Tywin Lannister.
Se Game of Thrones fosse brasileiro, Lima Duarte faria o papel de Tywin Lannister.

 

A maldade e o medo estão tão impregnados que até Jaime se surpreende quando lhe contam como foi o fim do líder dos saltimbancos, Vargo Hoat. São apenas umas 15 linhas de diálogo, mas a nojeira alcança níveis nunca antes pensados. A morte se tornou tão comum que um dos pensamentos de Brienne se encaixa bem nessa situação: “Numa árvore de forca, todos os homens são irmãos”. Thoros de Myr manda outra frase de efeito: “Quando os homens vivem como ratos no escuro, debaixo da terra, a piedade se acaba tão rápido quanto o leite e o mel”. Finalizando, Jaime Lannister vê a neve caindo (finalmente! Esperei 4 livros pra isso… se bem que inverno mesmo só no 6° livro) e manda uma frase de assustar: “O inverno marcha para o sul, e metade dos nossos celeiros estão vazios”. O que isso significa? Mais mortes, guerras e momentos como o descrito pelo Septão Meribald:

” – O perigo é ser parte do povo quando os grandes senhores jogam o jogo dos tronos – disse o Septão Meribald – Não é assim, cachorro? – o cão latiu concordando.”

2 thoughts on “[REVIEW] As Crônicas de Gelo e Fogo: O Festim dos Corvos

  1. Cara, ótima análise. Apesar que como já disse, aprecio os capítulos do Sam e da Brienne por que aprendi a gostar deles. Só não gostava mesmo dos capítulos da Catelyn, o que já não é mais um problema e um pouco da Daenerys. Eu gosto da Dany. Gosto mesmo. Mas a cultura é tão diferente que é estranho quando saio de um capítulo do Jaime, por exemplo, e caio em um da Dany.

    1. Apesar de que, se formos observar bem, os capítulos de Brienne nesse livro foram bastante movimentados. Teve a batalha contra aqueles três saltimbancos, depois a derrota para o Dentadas, mas… sei lá. Eu que não gosto da personagem. Mas alguém tem que ser “fraco” no livro. Se todos fossem motherfuckers, que graça teria?

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