Não serei aquele desgraçado a amaldiçoar as tecnologias (ou as decisões de empresários que pensam somente no bem-estar do seu bolso) que destroem as culturas antigas. Já passei de idade de pensar em ser comunista e criticar o “capital” e os “burgueses”. Isso é coisa de babaca, de integrante da UNE e daqueles que acreditam na sacra inocência de Lula. Mas fiquei realmente chateado com todas as confirmações que estamos recebendo a respeito dos consoles da próxima geração sobre a parada de não podermos mais emprestar ou revender um jogo. É o fim do troca-troca, no bom sentido.

Como era saudoso o tempo da locadora em que, para conhecer um jogo, você olhava para aquelas estantes, prateleiras ou porrinhas que ficavam presas nas paredes e escolhia qual jogo novo levaria para casa somente através do achismo. Ou então, jogava uma hora no local mesmo e depois levava pra casa. Pra conhecer um novo jogo era normal jogá-lo antes. Hoje, você acompanha vídeos de walkthrought no Youtube, mas não é a mesma coisa. Você não está jogando a parada. Como um bom idiota, você poderia até mesmo ficar com um controle na mão fingindo estar jogando. Mas não, deixa quieto.

Se você comprou o jogo em uma mídia física, aquele cartucho, DVD ou Blu-ray é seu. Você faz o que bem entender dele. Claro que você não pode fazer outras cópias dele e vender. Mas, qual o problema em emprestar para o amigo? Ou então, qual o problema em revender uma coisa que é sua?

 

Nunca fui, mas gostaria de conhecer esses paraísos de jogos usados e baratos
Nunca fui, mas gostaria de conhecer esses paraísos de jogos usados e baratos

 

Um dos grandes problemas da indústria dos videogames é que os produtos lançados há 5, 10, 15, 20 anos atrás tem o mesmo valor de compra e venda que um lançamento. Quantas pessoas não compraram um Wii só para jogar, por exemplo, Super Mario 64 que elas já haviam jogado em 1996?

Temos que pensar no mercado de games como algo bem diferente do mercado cinematográfico. Muita gente gosta de comparar os resultados dessas duas indústrias, mas o jeito que elas vendem seus produtos é MUITO diferente. Um filme é, ou, pelo menos, deve ser visto nos cinemas. É ali que todos os custos de produção e divulgação devem ser pagos. Se um filme não se paga na bilheteria é porque foi fracasso (comercialmente falando, é claro). No entanto, as produtoras ainda ganham dinheiro com filmes quando eles são vendidos em discos, caixas especiais, exibição nos canais de televisão, Netflix, etc. Se ganha um dinheiro com aquilo por um bom tempo. Mas nos games não.

Jogos de grandes produtoras tem altos custos de produção. Por exemplo, a Rockstar está gastando centenas de milhões de dólares na produção de GTA V. E como ela vai ganhar dinheiro com isso? Vendendo o jogo, uma única vez, a 60 dólares. Não há exibições em televisão ou qualquer outro tipo de fonte de renda. Claro que GTA V será um grande sucesso e venderá feito vodka+energético em festa de juvenis. Quando uma pessoa revende seu jogo, a Rockstar não ganha nada com isso. Aliás, ela está perdendo. Aquela pessoa que comprou um jogo usado a 20 dólares deixou de comprar o jogo novo a 60 dólares. Então, é compreensível (mas não aceitável) que as grandes produtoras façam pressão nos fabricantes de hardware, Sony e Microsoft, para que elas impeçam essa revenda.

 

Citar GTA V foi só uma desculpa para deixar registrado meu ânimo a respeito do uso de pitbulls no jogo. Ok, pode terminar de ler o texto
Citar GTA V foi só uma desculpa para deixar registrado meu ânimo a respeito do uso de pitbulls no jogo. Ok, pode terminar de ler o texto

 

A melhor saída encontrada até agora é a venda digital (e deve ser a única durante um bom tempo). Mas outras estratégias são lançadas e testadas. Um exemplo é modelo freemium, onde você tem acesso ao jogo de graça, mas paga por itens dentro dele. Acho péssimo esse modelo, pois cada pessoa acaba tendo uma visão diferente da obra. Tudo depende da quantidade de dinheiro que ela está disposta a pagar em chapéus de Team Fortress 2. Outra tentativa são aqueles jogos que só odem ser jogados com conexão à internet. Você conecta sua conta com o jogo e, a partir dali, só aquela conta pode jogar. Também é ruim, ainda mais se formos pensar em nível Brasil, onde a infraestrutura de comunicação é precária, LIKE A SOMÁLIA. Comprar um jogo em mídia física poderá se tornar como uma escolha de vinhos. É sempre bom ir em uma adega, olha um por um, mas a comodidade nos faz comprar pela internet para entregar em casa.

Muitos dos jovens que cresceram com Steam e cartão de crédito do pai ligado a PSN não saberão como é conhecer um jogo novo a partir de um amigo. Você poderia falar: “Ain, mais hj td mundo conhece todos os jogos por causa da net”. Tá, mas ninguém sabe como é jogar vários games. Só assistem vídeos. E as empresas só dão dinheiro para aquilo que COM CERTEZA dará retorno. Poucos são os projetos novos AAA com jogabilidade muito diferente. Quer saber, minha mensagem de gamer roots, daquele que conhecia jogos nas locadoras é: conheçam os Humble Bundles e sejam felizes. Vendo esses jogos eu me sinto como antigamente. Ou, como diria Carlos Drummond de Andrade, me sinto nos tempos de outrora.  

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