Criança é fogo. Não consegue ficar parada. Correr é quase um instinto. Fazer brincadeiras em que o objetivo é correr mais do que os outros é praticamente uma necessidade imposta pela natureza. Uma das minhas brincadeiras prediletas era uma versão de Rela, Congela (que, por sua vez, é uma versão do clássico Pique Esconde) em que um moleque tinha que contar até um certo número (geralmente é 50) e depois correr atrás dos outros. O objetivo é ser o último a ser pego.

Essa premissa faz com que a brincadeira ganhe seu lado stealth. A coisa mais divertida era se embrenhar no meio do pátio, entre as mesas onde as pessoas tomavam a merenda. O negócio era sentar entre os bancos, se mesclando. A dificuldade só aumentava quando os melhores velocistas e experts na brincadeira, como eu, sacavam que, depois de um minuto procurando outros putos, eles só poderiam estar no meio do vucu-vucu. Lembro que uma vez fiquei o intervalo inteiro sentado e vendo os outros procurando parecendo hienas em busca de carcaças.


Se minha escola tivesse dois andares como essa,
eu não estaria aqui contando essa história



Em uma dessas brincadeiras nos intervalos de 20 minutos (que sempre foi mais curto do que parecia), faltava só um para ser pego e para acabar a festa. Todos foram para o lado do pátio e encurralaram um dos caras mais lisos do grupo. Ele conseguiu escapar de um e, no seguinte, escapou de um tapa na cabeça abaixando-se. Eu era o próximo e, seguindo o movimento, o garoto se levanta e acerta com a testa o meu nariz em cheio. Eu fecho o olho e, quando percebo, estou deitado no chão.

Coloco minha mão no rosto e só sinto líquido quente. É claro que aquilo era sangue e, como nunca tinha vertido tanto sangue daquele jeito (nem nunca tinha visto tanto), me assustei e saí daquele local. Mas, LIKE A VERA VERÃO, saí correndo pelo pátio inteiro, com a cabeça pra baixo e pingando sangue, dei uma volta gigantesca e fui me lavar no bebedouro. Eu fico imaginando a cara das pessoas ao ver um FDP se lavando no bebedouro! É claro que muitas pessoas não tomaram mais água no bebedouro naquele dia.

Até hoje eu não sei o que aconteceu comigo. Sério. O correto seria eu ter ficado deitado após a pancada e pedir ajuda para levantar, sei lá. Agora, sair correndo pelo pátio assustando todo mundo? Eu nunca fui daqueles de atrair atenção, mas nesse dia o cérebro deve ter entrado em parafuso. Deu tilt. Eu poderia ter andado 30 metros e ter chegado na água, mas dei uma volta de uns 100 metros. Vai entender maluco né?



Tô sangrando? Tsc, isso não é nada!



Fui levado para a sala da diretora e lá me deram uma sacola com gelo para por no nariz. Perguntei insistentemente se o meu nariz estava torto e, por sorte, não estava. Fiquei lá cerca de uma hora esperando o calor que estava no meu nariz passar e perguntaram se eu queria chamar minha mãe para ir embora mais cedo. Mas, nerd e CDF que era (sério, eu só tirava dez) voltei para a última aula do dia com a camisa ensanguentada. Vejam que, ainda nessa época, os professores não pensavam em higiene e saúde. Acho que hoje seria impossível.

Quando cheguei em casa, minha mãe ficou uns 15 segundos olhando para meu rosto inchado e para minha camiseta suja. Acho que ela estava se perguntando como iria lavá-la. Por sorte não apanhei.

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