O Brasil é um lugar conhecido interna e externamente por ser o berço da malandragem, do “jeitinho”, do samba “esperto”, etc. Não vou tecer comentários sobre um país em que a malandragem é bem vista, onde as pessoas cultuam Seu Madruga (nada contra o personagem ou a atuação) por ele representar tão bem o brasileiro, apesar do cara ser mexicano. De um país em que, se um cara fica rico logo os próximos chutam que o dinheiro é sujo. De um país em que os problemas são levados até o último momento para serem solucionados. Onde tudo é atrasado, precisa de mais recurso, onde a chuva atrapalha, onde os culpados são os inocentes, etc.

Eu disse que não iria fazer comentários. Mas fiz. Forniquem-se.

Todos sabem que a tentativa de “se dar bem” está impregnada na sociedade até as suas mais profundas fendas. Aliada à essa vontade de dizer SI DEI BEM a plenos pulmões, existe também um movimento oposto, porém aliado, que é o NINGUÉM PASSA A PERNA EM MIM.



Por trás e sem a bola é cartão vermelho
e um jogo de suspensão



Há umas três semanas (sim, já faz um tempo, mas só agora pensei nisso) fui ao banco conversar com o gerente. Vocês devem estar pensando que sou um millionaire “Pô, o cara aqui tá falando que foi conversar com o gerente pessoal” (como se isso significasse alguma coisa). Não sou millionaire. Cheguei às 10 em ponto no banco, pois sou metódico com horários. Já fiquei desgraçado da cabeça quando vi a enorme fila que já havia se formado. Sorte que era para o caixa.

Antes de continuar, uma dúvida: qual a necessidade de chegar duas horas mais cedo na fila? Só para garantir o lugar e depois falar pros que chegaram depois: “É… tem que chegar cedo aqui”? Só falta bater na porta do banco falando isso. O #SiDeiBem já começa aí. Depois vem a venda de lugares na fila do INSS, na fila do Paul McCartney, no espetinho do Tião…



Se fosse para um show bom, mas… um ex-beatle?



Ao entrar no banco às 10:05 porque os guardas controlam a entrada, sentei-me em um dos bancos da fileira destinada ao atendimento do gerente. Só tinham três velhos na minha frente. Velhos chatos me irritam. Acho que a todos. Mas não vou dar mais uma volta. Vamos lá.

Os velhos sentaram-se nos três primeiros lugares da fileira, lá numa ponta desgraçada. Eu, um ingênuo que acredita na primeira regra de uma fila (a ordem de chegada), sentei-me longe deles, próximo de uma saída de ar condicionado (cidade quente dá nisso). Logo, um outro sujeito chegou e sentou-se próximo dos velhos. Sabia que ele ia querer “se dar bem” naquela situação. Deixei passar.

Uma hora se passou para que três pessoas fossem atendidas. Maravilhado com o atendimento do banco e com a importância que eles dão ao cliente, ouço o gerente dizer “próximo”. Não havia mais velhos. Logo, eu seria o próximo.

No entanto, eu e o sujeito que chegou depois levantamos juntos e nos dirigimos ao gerente. Eu, paciente e com a “lei” ao meu lado peguei uma cadeira, puxei e me sentei. O outro fez o mesmo com a outra cadeira.

O gerente perguntou: “Vocês estão juntos?”. Respondi: “Nem conheço esse cara”. Aí ele abriu a boca: “Eu estava na frente na fila”. Revidei: “Aqui não tem uma fila normal. É por ordem de chegada e por bom senso”. Falei isso pensando que ele ia se tocar. Mas o cara insistia na teoria que dá o título ao post. “Eu tava ali na ponta. Você tava lá no canto”.

Resolvi dar uma xiliquento (EPA!) e falei já me levantando: “Vai lá malandrão. Você venceu. Seja atendido”. Nessa hora algumas pessoas passaram a olhar, principalmente por causa do tom de voz que empreguei na frase. Logo o gerente, sujeito esperto e observador, acalmou a discussão “Peraí. Eu vi o garoto chegar antes. O senhor poderia esperar mais um pouco?”. Olhei com muita raiva para o sujeito (quem me conhece pessoalmente deve ter começado a rir nesse momento) e ele, com aquele olhar de “te pego na saída” ficou em pé, a somente três passos da mesa. Aí o gerente “pediu” para que ele se sentasse e ele o fez.



Quase imitei a (o) Vera Verão. Quer dizer, não foi isso…
mas foi



Depois que resolvi o que fui fazer naquela merda de banco, fiquei pensando na frustação do malandrão em querer se dar bem naquele dia.

O foda é que, em vários lugares do Brasil, muitos estão falando agora “Você quer ganhar dinheiro fácil, sem sair de casa?” ou estão pensando “Vou furtar este livro da escola” (para rasgar depois). Confesso que já fui adepto da teoria do #SiDeiBem. No entanto, percebi o quanto ela é nociva não só para a sociedade, mas para mim mesmo. Hoje em dia só pratico maldades gratuitas, não em benefício próprio, mas da alegria da coletividade. O dia em que eu não fizer mais isso, posso me tornar até santo. Seria legal ser reconhecido em vitrais coloridos e sujos.

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