Passou Levou se consiste na brincadeira de infância mais agressiva da qual já participei. Ela é mais absurda que a Guerra de Pedras. Era o lugar onde os valentões podiam descontar sua fúria nos mais fracos, oprimidos ou nerds.


A brincadeira era a seguinte. Uma bola ou, na maioria das vezes, uma pedra que pudesse ser chutada sem abrir o tênis na primeira tentativa era o único utensílio para começar o jogo. Ah, uma quadra de futsal (um nome muito melhor que futebol de salão) também se faz necessária. Bem, muitas, mas muitas crianças de qualquer idade dispostas a bater e serem batidas chutam a pedra com o objetivo de passá-la por baixo das pernas do adversário. Caso isso aconteça, qualquer um no raio de 50 metros pode desferir chutes, socos, rasteiras, cascudos, petelecos e outros tipos de agressão física. Caso a pedra passe por baixo de suas pernas, sua única opção é sair correndo rumo à trave mais próxima. Se você conseguir chegar até lá sem quebrar uma das pernas, as crianças, por alguma razão desconhecida e/ou respeito às regras, param de bater em seu corpo.

Lembro que eu e meu melhor amigo costumávamos ficar na beira da quadra, próximos à trave e de pernas cruzadas para que nenhuma pedra passasse por debaixo de nós. Ficávamos rindo feito hienas dos moleques de 1,40m apanhando de monstros de 1,80m. Isso foi engraçado até um fato insólito. Quer dizer, é engraçado até hoje.

Em mais de um dia desta brincadeira saudável, estávamos eu e meu amigo observando a jogatina. Meu amigo decide participar e eu, receoso e medroso decido ficar onde estou. Até que um dos valentões que mais batiam sem piedade tem uma pedra passada por baixo de suas pernas. Todos param e vão para cima dele. Ele sai correndo em direção à trave, mas não havia um puto com coragem ou loucura suficiente para desferir um belo chute nele.

Mas aí teve um. 

Um carinha que era da minha sala deu-lhe um chute na perna, daqueles para derrubar o outro no chão. O valentão que estava rumo à trave cai para fora da quadra em um amontoado de folhas queimadas e grudadas no chão devido à chuva do dia anterior. Sabe quando as folhas ficam pretas? Então, foi num lugar assim que o cara caiu. Todos param de bater no cara que levanta de pronto e vê seu uniforme branco completamente sujo.

Ele nem se interessa mais em alcançar à trave e olha para todos com um olhar vermelho demoníaco. Com certeza ele está preso hoje em dia por tráfico de drogas ou roubo seguido de morte. De qualquer forma ele aponta para o meu melhor amigo e diz já indo para cima:

“Foi você?”

Meu amigo responde: “Não, não fui eu”. Um colega desse valentão aponta para o culpado, o carinha que era da minha sala e diz: 

“Foi aquele ali!”

O carinha da minha sala vai andando para trás e diz “Foi mal, foi mal”. Nesse instante uns 15 valentões saem correndo atrás dele. Ele pula a grade e, numa corrida espetacular, faz os cem metros em direção à diretoria em menos de 5 segundos, um tempo de dar inveja a Usain Bolt.
Uma semana depois, esse cara voltou para escola (coisa que eu nunca faria) e apanhou muito na saída. Ele mudou para outra escola e ficamos sabendo que ele também apanhou muito lá. 

O último status do Foursquare dele (mentira!) indicavam Presidente Venceslau, cidade vizinha à minha. Acho que os valentões devem ter ido até lá bater nele.

Deixo com vocês um vídeo de péssima qualidade que encontrei. No entanto, ele ilustra bem o que acontece numa brincadeira deste tipo. Um moleque pequeno recebe pontapés de “adultos”. O mais legal do vídeo é a gritaria tipicamente tupiniquim. Bateu saudades…


Olha, nunca mexa com valentões. #fikdik 

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